Linguagem e silêncio
O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, em seu Tractatus logico-philosophicus, deu uma contribuição definitiva às discussões de linguística ao destacar a importância do uso do silêncio quando as palavras já não são o suficiente para exprimir uma ideia ou um sentimento. Reflexões semelhantes permeiam Paisagem com dromedário, quarto livro da escritora nascida no Chile e naturalizada brasileira Carola Saavedra, o terceiro pela Companhia das Letras – o trabalho restante é a coletânea de contos Do lado de fora, editada pela 7Letras. Se em Toda terça uma das personagens fala de problemas amorosos a um analista e em Flores azuis um homem recebe, por engano, cartas enviadas por uma mulher ao antigo amado, o novo romance retoma os atritos afetivos cujo discurso é, de algum modo, intermediado por algum recurso adicional (por isso mesmo suspeito, aberto a distorções e inverdades), mas, no lugar de cartas e de relatos a um analista, Carola introduz um novo artifício, o das gravações. Elas são realizadas por Érika, uma artista plástica que, no momento da narrativa, encontra-se com um casal de amigos em uma ilha misteriosa, nunca situada geograficamente, com dromedários e um vulcão.
Através dos registros no gravador, Érika revisita a relação com Alex, artista muito mais conceituado do que ela e a quem dirige as palavras gravadas, e com a bela e frágil Karen, introduzida à cama da dupla por Alex. Um dos motivos para o exílio voluntário na ilha, aliás, é o fato de a protagonista ter abandonado Karen assim que a amiga descobriu estar padecendo de um câncer terminal. Outra razão é a dependência criativa em relação a Alex, visto no meio artístico como o talento que sufoca a mediocridade da companheira. Dessa forma, as gravações desempenham a função de autodescobrimento, de discursar para esquadrinhar experiências: “A gente vive e pensa que o vivido vai servir para algo, só que não serve para nada, não ficamos melhores ou mais sábios ou mais compreensivos”, afirma, cambaleante, Érika. Suas falas erigem uma catedral de significados, e nessa arquitetura o silêncio é fundamental.
“O que importa é que o silêncio não existe, e, ainda que eu fique aqui e não diga nada, há sempre algo acontecendo e fazendo barulho (...) Seria tão bom simplesmente morrer e parar de pensar, de existir, o silêncio enfim”. Ao negar e, ao mesmo tempo, desejar o silêncio, Érika tenta tangenciar a viagem da descoberta da própria persona, afetada pelo senso de inferioridade em comparação a Alex, fugir da caminhada em direção à morte e expurgar os indesculpáveis erros cometidos com Karen. Daí a importância dos sons que entremeiam as gravações – diálogos, canções, choros, sons da natureza e, naturalmente, silêncios. É por meio desses sons que Érika deixa escapar fraquezas e franquezas, revela a busca pela identidade posta em dúvida na paixão a três. Busca o não dito para compreender a si mesma, entrega-se às palavras para disfarçar o medo de um possível fracasso. Na segunda metade do romance ela tenta criar laços, inclusive amorosos, com pessoas da ilha, radicalmente diferentes de Karen e Alex (e aqui a autora deixa a qualidade cair um pouco, diga-se), apenas para confirmar que os sentimentos originais, por mais cruéis que pareçam, não estão longe da verdade.
Além de travessia emocional, Paisagem com dromedário é um estudo sobre a capacidade de redenção da arte. Como não imaginar, afinal, que o conjunto de gravações reunidas possa representar uma obra ficcional, uma instalação sobre o alcance da linguagem (e do respectivo silêncio) e o poder da criação no revigoramento amoroso, criada por Érika para iludir o leitor? Ou pela própria Carola Saavedra, uma das vozes mais interessantes da literatura brasileira atual.
PS: O título deste texto é uma referência à luminosa compilação de ensaios de George Steiner, inaceitavelmente esgotada no Brasil
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