Segunda-feira, Maio 10, 2010

Auster: razoável, mas bom

Por mais que a constatação incomode seus devotados admiradores, a verdade é que Paul Auster é a promessa não realizada mais retumbante da literatura de língua inglesa contemporânea. Os primeiros trabalhos do nova-iorquino impressionaram a crítica, em especial o delicado ensaio sobre paternidade A invenção da solidão e as novelas em tom de filosofia policialesca da Trilogia de Nova York. A partir daí, Auster nunca se superou. Alternou bons, medianos e péssimos momentos: no primeiro grupo podemos incluir Leviatã, O livro das ilusões e Palácio da Lua (apesar do final irritante, de tão inverossímil), ao passo que Noite do oráculo e Desvarios do Brooklin são apenas regulares; entre os lamentáveis estão Timbuktu, Mr. Vertigo e dois lançamentos recentes, os políticos Viagens no scriptorium e Homem no escuro. A coincidência é que esses quatro últimos títulos apostam na alegoria, território no qual o escritor nunca alcançou êxito. Daí, talvez, seu retorno, em Invisível, ao relativo realismo de seus melhores trabalhos. Nem sempre triunfa, porém ainda assim o resultado é superior ao que vinha fazendo. Auster às vezes desce a níveis tão baixos que um livro apenas razoável acaba se destacando acima do merecido.

Grande parte de Invisível tem lugar em um momento fundamental da história americana recente, 1967, ano da contracultura e época de efeitos bastante explorados em grandes obras de outros autores do país (O planeta do Sr. Sammler, de Saul Bellow, Pastoral americana, de Philip Roth, Arco-Íris da gravidade, de Thomas Pynchon, Coelho em crise, de John Updike, e Submundo, de Don DeLillo). Estudante de literatura em Columbia e aspirante a poeta, Adam Walker relata a noite em que conheceu, numa festa, Rudolf Born, suíço radicado na França que estava em Nova York lecionando por um curto período, e sua namorada Margot. Born e Margot parecem fascinados com a beleza e precocidade do rapaz, e o professor faz a proposta de criar e patrocinar uma revista literária tocada por Walker. O jovem aceita, mas muda de ideia devido a um incidente envolvendo um assassinato.

Na segunda parte do livro o narrador é um colega de faculdade de Adam, Jim, hoje um escritor de sucesso, que conta como o antigo amigo entrou em contato para mandar o capítulo de 1967, livro que vinha escrevendo – exatamente a primeira parte de Invisível, que o leitor acaba de ler. Walker nunca se realizou como ficcionista. Agora, próximo do fim (está morrendo de leucemia), concentra forças para relatar os estranhos eventos daquele ano. Pouco depois do fracasso da revista, o rapaz resolve se mudar para Paris. Antes disso, passa um mês vivendo com a irmã, com quem mantém uma relação incestuosa e intensa. A separação é doída, mas Adam se muda para a França, onde retoma o contato com Margot e reencontra o sinistro Rudolf Born. Através de Born, entra em contato ainda com outra jovem estudante dada a talentos literários, Cécile. Tudo isso está contido em 1967, enviado pelo moribundo Adam Walker a Jim. Walker, no entanto, falece antes de terminar o relato, e cabe ao amigo investigar as pistas e lacunas deixadas pelo autor aqui e ali. Procura Gwyn, a irmã de Adam, e Cécile, descobre o que houve com Born, investiga suas insidiosas relações governamentais. Como em quase todas as obras de Auster, o leitor depara com uma estrutura enganosa de realidade e ficção, jogos de autoria e metalinguagem, de discursos que se cruzam e se contradizem.

Tais artifícios já foram utilizados à exaustão na literatura do bardo do Brooklyn, e nesse sentido Invisível não possui uma razão de ser dentro da bibliografia do autor. As qualidades do romance são outras. A começar, como já se disse, pelo abandono da pegada alegórica de Viagens no scriptorium e Homem no escuro. Os protagonistas vazios, espectrais daqueles dois trabalhos (uma tentativa de emular Beckett?) desaparecem; dão lugar a figuras vivas, que efetivamente estimulam a empatia do leitor. O autor também corrige uma falha habitual, a de entregar demais a personalidade dos personagens. Adam, Gwyn, Cécile e Born são ambíguos, pouco inclinados à interpretação exata. Por sinal, outra vitória do livro é apostar nos pontos de vista alternados, visto que o nova-iorquino cansa por quase sempre narrar em mesma primeira pessoa com somente um personagem – além das participações de Jim e da narração de Walker em 1967, há trechos do diário pessoal de Cécile, sem falar de passagens em segunda e terceira pessoas. Se um dos poucos acertos de Homem no escuro era uma reflexão sobre filmes de Ozu, Renoir, De Sica e Ray, Auster agora nos brinda com uma bela menção a Ordet, de Carl Dreyer. Por outro lado, fica a dever a abordagem da geração da contracultura, tema central do livro, apenas superficial.

Se Invisível, mesmo com falhas, supera os anteriores, grande parte do motivo reside no fato de que Auster parece mais confortável com a condição de autor menor da literatura americana. Mesmo talentoso, ele nunca será um Roth ou Pynchon. Isso não o impede de escrever livros agradáveis de ler (page-turners, como se diz em inglês), entretenimentos sofisticados graças sobretudo ao ritmo de mistério da prosa (se bem que uma prosa um tanto dada a frases que chafurdam no clichê, como "a guerra é a expressão mais pura e mais vívida da alma humana" ou "a vida é breve demais para deixarmos as coisas para depois"). Talvez seja o caso de abrir mão da necessidade de publicar romances a cada dois anos. Com um pouco mais de paciência e concentração ele pode até parir algo à altura da Trilogia de Nova York.

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4 Comments:

At Maio 10, 2010 9:37 PM, Blogger Ronnie K. said...

Coincidentemente do Auster só li os dois que voce citou como os melhores, O inventor da Solidão e A Trilogia... Ah, minto: li também o recém-publicado e curtinho O caderno Vermelho. Os primeiros texto desse livreto são primorosos. Depois cai um pouquinho... Enfim. Tenho outras prioridade sem ser o Auster. Aliás, outro dia tava pensando, será que o Jonas comentará no blog sobre o livro mais sensacional lançado nesse 2010 até agora, o Senhores e criados, do Pierre Michon? Quem sabe, né? Um abraço. Sou seu leitor assíduo.

 
At Maio 14, 2010 4:52 PM, Blogger Diogo Fontana said...

Gostei daqui. Parabéns pelo blog!

 
At Maio 18, 2010 8:43 AM, Blogger Leandro Beguoci said...

O Auster é meio Robinho, não?

 
At Maio 18, 2010 11:29 AM, Blogger Jonas Lopes said...

Verdade, Leandro. A mesma irregularidade. E a mesma tendência de, às vezes, recorrer a firulas sem muito resultado..

 

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