Sábado, Abril 03, 2010

Léxico memorialístico

Há quem diga que períodos de turbulência histórica, política e social costumam render grandes obras de arte. Se tal ideia é verossímil, um exemplo sintomático é a Itália das primeiras décadas do século passado. Os anos de tensão que antecederam a chegada de Benito Mussolini ao poder, o regime fascista em si e a necessária e traumática reconstrução após a Segunda Guerra Mundial foram marcados pela ascensão de uma admirável geração de romancistas, filósofos, artistas plásticos e cineastas. Um painel abrangente de parte desse grupo pode ser acompanhado em Léxico familiar, relato autobiográfico da escritora Natalia Ginzburg. Centrado, a princípio, na juventude e na adolescência da autora em uma família burguesa, socialista e judia, e, depois, nos complicados anos de conflito, o livro (que integra a coleção Mulheres Modernistas, da Cosac Naify, aquela das joias de Flannery O’Connor, Katherine Mansfield e Virginia Woolf, entre outras) exibe um ambiente que envolve, além dos pais e irmãos de Natalia, nomes importantes da esquerda italiana, como o escritor Cesare Pavese, o pintor Carlo Levi e editor Giulio Einaudi (dono da prestigiosa editora Einaudi). Vale lembrar alguns outros nomes dessa geração iluminada, todos nascidos nas três primeiras décadas do século XX: Giulio Carlo Argan, Eugenio Montale, Alberto Moravia, Elio Vittorini, Italo Calvino e os principais diretores neo-realistas – Rosselini, Visconti, De Sica. Aliás, pensando em nossos dias, é mais confortante nos lembrarmos da esquerda italiana pelo talentoso Claudio Magris do que pelo asqueroso Cesare Battisti...

Natalia Ginzburg não trata as memórias de infância de modo idílico e idealizado e tampouco tenta recriá-las como um inferno, a exemplo de Thomas Bernhard em Origem. Sua abordagem se aproxima mais à de Fellini em Os boas-vidas ou Amarcord. Seus pais eram divertidos: o pai é um cientista de voz tonitruante, mania de fingir horror a vidas luxuosas e tendência a superproteger as crias; a mãe, uma desocupada feliz que vive para a família e exerce a mesma pressão sobre os filhos, só que mais motivada pela carência do que pelo afã de proteção; os quatro irmãos são felizes e infelizes cada um à sua maneira, da irmã proustiana e assumidamente burguesa ao irmão economista e de gostos fúteis. Todos eles possuem bordões pessoais, uma espécie de elo familiar e fonte fértil de gargalhadas para o leitor. O ambiente antifascista é construído com sutileza pela narradora: conforme ela cresce e vê os irmãos crescerem, o envolvimento da família com a resistência de esquerda cresce naturalmente na prosa sem sobressaltos ou mudanças drásticas de tom. Sem se ater tanto a aspectos fatuais da guerra, Natalia costura o coletivo e o individual (a morte do primeiro marido na prisão, por exemplo) e transmite a sensação de medo e paranóia, mas também o misto de desilusão em relação aos escombros pessoais e o desejo de reconstruir o país que se seguiram aos bombardeios e perseguições.

Logo na introdução de Léxico familiar a escritora esclarece que “esta não é a minha história, mas antes, mesmo com vazios e lacunas, a história de minha família”. Na verdade, ao empilhar fatos e pequenos episódios de acordo com aquilo que lembra (ou quer lembrar), a italiana é traída pela escrita e não faz outra coisa senão contar a própria história. Somos formados também pela memória de tudo que nos envolve, afinal. Natalia Ginzburg constrói a catedral formada pelas camadas e malhas de lembranças de um modo distanciado, quase flaubertiano (ela, aliás, traduziu Flaubert; escreveu ainda ensaios sobre Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov), porém deixa, aqui e ali, traços de ternura, censura tímida e nostalgia que ajudam a compor, tanto quanto os silêncios ou, como ela diz, vazios e lacunas, a sua visão da história. Uma das passagens mais notáveis do livro, por sinal, é o afetuoso retrato de Pavese, o autor dos brilhantes Diálogos com Leucó e O ofício de viver: “No amor e também na escrita, mergulhava com um tal estado de espírito de febre e de cálculo, a ponto de nunca saber rir disso, e de nunca ser ele mesmo por inteiro: e às vezes, quando agora penso nele, sua ironia é a coisa de que mais me lembro e sinto saudade porque não existe mais: não há sombra dela em seus livros, e não é possível encontrá-la em outro lugar a não ser no vislumbre daquele seu sorriso maligno”.

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1 Comments:

At Maio 11, 2010 8:37 PM, Blogger Janine Huguenin Meirelles de Souza said...

Jonas, o que vc acha do memorialista Antônio Carlos Villaça?

 

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