Panorama íntimo
Gigante literário que foi, Tolstói soube conferir a mesma genialidade tanto a grandes panoramas históricos, como Guerra e paz, radiografia minuciosa que abarca a coletividade de uma época, quanto a jóias intimistas sobre a miséria de um ou dois personagens, caso das novelas A morte de Ivan Ilitch, A sonata a Kreutzer e Felicidade conjugal. Ao passo que Anna Kariênina, seu trabalho definitivo, consegue a façanha ainda mais impressionante de contar a história de um tempo com uma amplitude impressionante ao mesmo tempo em que traça o perfil psicológico denso de Anna e Liévin. Escrita no fim da vida do escritor, Khadji-Murát (lançado pela Cosac Naify com tradução de Boris Schnaiderman) também exibe um perfil misto. A rigor é um romance histórico, pois tem lugar na Guerra do Cáucaso da metade do século XIX e recorre a uma figura que existiu, mas a narrativa se concentra no personagem-título, um guerreiro tchetcheno, um célebre membro da resistência temido pelos russos pela coragem e habilidade nas batalhas (e admirado pela generosidade, mesmo sendo implacável no campo de batalha), e que deserta depois que o chefe sequestra sua família e ameaça exterminá-la. Coloca-se, então, a serviço dos inimigos.
Para quem gosta de acusar o autor russo de pregação religiosa nos trabalhos da maturidade, Khadji-Murát é uma lição de desprendimento moral. A narração em terceira pessoa elimina a possibilidade de Tolstói tentar doutrinar o leitor (embora continue sendo uma tolice reclamar da pregação; no estilo tardio do autor os discursos sempre cumprem algum papel na carpintaria da trama, que o diga o marido traído de Kreutzer, assombroso de tão bem caracterizado, ainda que moralmente desprezível). Não há grandes digressões, apenas ações; Schnaiderman chega a classificar o livro como cinematográfico, devido às empolgantes cenas de batalhas e às intrigas políticas.
Outra particularidade do livro é utilizar o estilo panorâmico para se aprofundar na biografia de um só indivíduo. Lemos sobre Khadji-Murát por diversos pontos de vista além do dele: dos caucasianos que o acolhem, do czar, dos líderes do exército russo, até da esposa de um desses líderes. São eles que constroem, tijolo a tijolo, a psicologia de um personagem fortemente ligado à moral e à honra. Tolstói pariu aqui um filho aterrado pela dúvida entre a obrigação que sente de salvar os seus e o constrangimento de trair os ideais e entregar-se aos inimigos para alcançar o objetivo, entre a coragem que lhe é inata e a consciência de que, se hesitar por um instante, falhará miseravelmente. Tamanha grandeza pode ser encontrada também nos grandes heróis de Conrad – Lord Jim e Nostromo, notadamente. Harold Bloom percebeu no personagem uma dimensão trágica shakespereana, “num irônico triunfo do dramaturgo sobre o escritor que mais desfez dele”. Numa das principais passagens da obra, o guerreiro fala a um oficial russo sobre certo incidente do passado, o único que lhe provocou medo. “Desde então, sempre lembrei aquela vergonha e, lembrando-a, não temia mais nada”. Irascível, Murát sabe que tentar intervir nos acontecimentos e dominá-los significa desafiar a morte. E ele aceita o desafio.
Marcadores: literatura

3 Comments:
Adoro Tolstoi, irei atrás. Brigadinha!
bj
li este livro em uma tradução provavelmente inferior, mas nada que obscurescesse a beleza da obra. além de encarnar um ideal romântico pelo viés russo, o protagonista antecipa o herói truculento porém honrado do cinema de ação dos anos oitenta. é um livro excepcionalmente belo.
Desde já obrigatório. Aliás, Tolstói nas novelas é imbatível. Só encontra paralelo nos melhores James do mesmo gênero!! (http://olhargratuito.wordpress.com)
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