Domingo, Fevereiro 21, 2010

Murmúrios enfermiços da história

Por falar em escritores argentinos, uma boa notícia deste início de ano é o lançamento em edição de bolso pela Companhia das Letras de Respiração artificial, primeiro romance de Ricardo Piglia, na mesma tradução de Heloisa Jahn publicada pela Iluminuras há mais de vinte anos. Editado originalmente em 1980 e eleito um dos dez grandes romances da história da Argentina, o livro funde duas características típicas de nossa era literária. A primeira é a aliança entre ficção e ensaio, de digressões sobre política e principalmente literatura (Piglia é professor e um crítico exímio, autor dos indispensáveis O último leitor e Formas breves), que prefiguram, entre muitos outros, o Enrique Vila-Matas de Bartleby e companhia e Doutor Pasavento e o Alan Pauls de A vida descalça. E a segunda característica, ainda mais marcante, é o uso de artifícios literários para investigar os efeitos da história (ou de um episódio histórico) no presente, dispositivo inerente à maioria das melhores obras dos últimos anos – Austerlitz (W.G. Sebald), As benevolentes (Jonathan Littell), Seu rosto amanhã (Javier Marías), Complô contra a América (Philip Roth), As nuvens (Juan José Saer), Noturno do Chile (Roberto Bolaño) e Casa de encontros (Martin Amis); no Brasil os exemplos enfim começam a aparecer: Nove noites, de Bernardo Carvalho, Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues, e História natural da ditadura, de Teixeira Coelho.

Respiração artificial é uma cerebral colcha de retalhos formada por diversos gêneros, do histórico ao policial, do epistolar ao metaficcional. Piglia, no entanto, desata um possível nó pós-moderno ao engendrar personagens carismáticas, que fazem a engenhosidade da trama trabalhar em função do leitor. Várias camadas compõem o relato. O jovem romancista Emilio Renzi (alter ego do autor) acaba de publicar um romance de “ar faulkneriano” inspirado na vida de um tio desaparecido há décadas. O tal tio, Marcelo Maggi, revela ainda estar vivo, passa a trocar cartas com Renzi e o convida para visitá-lo na pequena cidade de Concordia. A intenção de Maggi é legar ao sobrinho o diário de Enrique Ossorio, tido como traidor do general Rosas mais de cem anos antes. Na estada em Concordia, Renzi conhece ainda o polonês exilado Tardewski, tipo de notável complexidade biográfica e intelectual. Foi aluno de Wittgenstein em Cambridge, jogou xadrez com James Joyce em Zurique e deixou de ser uma promessa das letras europeias para mofar na América do Sul. Leitor dos Pensamentos, de Pascal, Tardewski é fascinado pela figura do fracassado, “um homem que não tem, talvez, todos os dons, mas muitos, inclusive bem mais do que os comuns em certos homens de sucesso” e, ao invés de explorar esses dons, o fracassado os destrói.

Através dos documentos de Enrique Ossorio, Piglia traça uma relação entre a disputa pelo poder na Argentina no século 19, a chegada de imigrantes europeus logo após a Segunda Guerra e o início da recente ditadura militar – não à toa Renzi abre Respiração artificial afirmando que, se tudo isso dá uma história, ela começa em 1976, ano inicial do último regime. O escritor se arrisca no delicado limite entre fato e fantasia, orgânico e artificial, ao investigar a história por meio de documentos que podem ou não ser de natureza ficcional. “Jamais haverá um Proust entre os historiadores”, escreve Marcelo Maggi ao sobrinho. Em outro trecho Renzi ouve, desta vez de Tardewski, que “a paródia substituiu inteiramente a história”. Ou seja, de uma só vez Piglia discute o modo como podemos apreender os erros do passado para evitá-los no futuro, a capacidade do leitor de destrinchar o emaranhado tecido pelo autor (como um detetive, pois o livro tem muito de policial) e, acima de tudo, a função do narrador ficcional em uma época profusa em documentações. “Contar”, reflete um personagem secundário, o “Senador”, “é para mim uma maneira de apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter afastado para sempre de meu corpo”. Mas nem sempre o ato de contar apaga verdades desagradáveis. Ao escrever sobre um suposto encontro Franz Kafka e Adolf Hitler, Tardewski ressalta que Kafka, por estar “atento ao murmúrio enfermiço da história”, conseguiu antever em sua obra os horrores nazistas.

Emilio Renzi volta a aparecer superficialmente no romance seguinte de Piglia, A cidade ausente, que também merece uma reedição com urgência. E ele será o narrador do próximo trabalho do escritor, há anos prometido e ambientado na época da Guerra das Malvinas.

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2 Comments:

At Março 05, 2010 4:41 PM, Blogger jade.martins. said...

vou ler (o "respirações artificiais")!!! já coloquei na listinha do fim de semana.
bela resenha, jonas!
PS: gostei pacas de "as benevolentes"!

 
At Março 09, 2010 7:32 PM, Blogger Eduardo Palandi said...

favor atualizar este blog

 

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