Demônios de Francis e Bergman
Dois documentários lançados há poucas semanas no Brasil – um deles no cinema, o outro em DVD – exploram a vida de personagens cujas biografias intrigam tanto os admiradores quanto sua produção intelectual. Caro Francis, de Nelson Hoineff, possui problemas graves. Ao assumir que faz um retrato afetuoso de Paulo Francis, Hoineff tenta se livrar de possíveis críticas de falta de imparcialidade; justifica assim as manipulações de edição, como a de insinuar, por meio de uma imagem de bastidores não cortada, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não teria feito nada para livrar o jornalista do oneroso processo movido pela Petrobrás que ajudou a levá-lo à morte, em 1997. Francis pareceria mais complexo se suas contradições e demônios pessoais fossem explorados com coragem. Ainda assim, os problemas do documentário se devem mais à estética Globo Repórter (ou especial da Globo News) de enquadramentos óbvios, encadeamento biográfico linear e as inevitáveis passagens lacrimosas, quase sempre ao som do (belo, diga-se) Liebestod de Wagner. Não faz sentido ir ao cinema ver algo que poderia estar ao alcance do controle remoto, com reprises em horários variados... Há também um problema de ritmo: a primeira metade é leve, divertida, e a segunda, sobre o processo da Petrobrás e o provável erro médico que ajudou Francis a morrer, muito pesada. Hoineff optou por um desfecho baixo astral, e o desequilíbrio incomoda.
As qualidades? Francis, claro – o personagem felizmente transcende o resultado do filme; algumas (poucas) imagens raras da intimidade do colunista do Diário da corte, cedidas pela viúva Sonia Nolasco; e vários depoimentos funcionam bem, como os de Sérgio Augusto, Diogo Mainardi e Luiz Schwarcz. Faltou Ivan Lessa. Talvez tenha faltado verba para ir até Londres entrevistá-lo.
Em A ilha de Bergman, que a Versátil acaba de colocar nas lojas em DVD, a sueca Marie Nyreröd acerta mais. A começar pelo fato de que está retratando uma figura célebre por sua aversão à publicidade. Se por um lado estamos acostumados a conhecer as opiniões de Paulo Francis sobre qualquer assunto, é sempre um prazer descobrir detalhes do solitário cotidiano de Ingmar Bergman na deslumbrante ilha de Fårö, pouco antes da morte da mente por trás de Gritos e sussurros. As caminhadas nas quais o diretor se diz acompanhado por seres misteriosos, por exemplo, ou as tardes passadas no cinema de sua casa ou as noites na lareira, vendo a neve do lado de fora. Além das imagens pertencentes ao acervo de televisões locais, há curtas caseiros de bastidores realizados pelo próprio Bergman ao longo das filmagens de clássicos (O sétimo selo, Morangos silvestres, Através do espelho). Raridades assim denotam a superioridade de A ilha de Bergman sobre Caro Francis – mesmo porque os melhores trechos do segundo estão tranquilamente disponíveis na internet. Ambos dividem, é verdade, a estética televisiva, com a diferença de que A ilha de Bergman de fato foi feito originalmente para televisão. E mesmo que seja um retrato afetuoso, não se pode negar que Nyreröd explora os demônios do retratado: leva o próprio Bergman a admitir atitudes monstruosas como marido e pai. Ao falar da esposa Ingrid, com quem ficou casado por 24 anos (antes disso havia sido casado outras quatro vezes, fora os casos com atrizes), o cineasta que tanto emocionou o público sofre para resistir às lágrimas.
Marcadores: cinema

2 Comments:
adoro, adoro, adoro bergman.
e adorei o seu texto.
beijo carnavalesco,
Muito obrigado pelas palavras gentis, Jade. Procura na locadora o filme sobre o Bergman, acho que você vai gostar bastante.
beijos
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