Conversações borgeanas
Palavras, quaisquer palavras, teu riso; e tua beleza tão preguiçosa e incessante. Conversamos, e tu esqueceste as palavras.(Jorge Luis Borges, “Dois poemas ingleses”, O outro, o mesmo)
“Acho que a escrita é uma espécie de colaboração. Ou seja, o leitor faz sua parte do trabalho; enriquece o livro. E o mesmo acontece quando se dá uma palestra”, observa Jorge Luis Borges em uma das conferências reunidas em Esse ofício do verso. Muito devido à cegueira que o acompanhou durante grande parte da vida, o escritor argentino nutria um carinho particular pela oralidade – seja a de uma aula, um debate, uma entrevista ou uma conversa informal. Para ele, a descoberta do diálogo pelos gregos foi “a melhor coisa registrada na história universal”, já que, através dele, Platão e companhia “duvidaram, persuadiram, discordaram, mudaram de opinião, adiaram”. Uma fração de importância considerável dos diálogos borgeanos saiu em três volumes compactos e imprescindíveis editados pela Hedra, Sobre a amizade e outros diálogos, Sobre a filosofia e outros diálogos e Sobre os sonhos e outros diálogos. Os livros compilam bate-papos realizados entre Borges e o jornalista Osvaldo Ferrari, transmitidos via rádio ao longo de vários meses a partir de março de 1984, não muito tempo antes da morte do contista, poeta e ensaísta, em 1986.
As conversas se dão no seguinte método: Ferrari sugere temas, às vezes desenvolvendo algum comentário ou relembrando a opinião de seu interlocutor sobre eles, ou, em muitos casos, apenas menciona uma palavra-chave, algo suficiente para que Borges desande a falar. Esperto, o jornalista não tenta obscurecer ou sobrepor-se à estrela das transmissões; limita-se a moderar os diálogos e alimentá-lo de forma intermitente, pontual. Nem é necessário tanto esforço. Borges conversa como se escrevesse um ensaio: agarra o tema, acaricia-o, manifesta uma ideia central acerca dele para então traçar contradições e conjecturas dela, lança mão de hipóteses e, logo após, argumentos que justifiquem e questionem cada hipótese. Na boca de um acadêmico tomado pelo jargão, tal expediente se converteria em uma ladainha desgraçadamente prolixa e enfadonha, impenetrável para não iniciados.
Borges não era um desses. Considerava-se um saudável amador. Mesmo sendo erudito ao extremo, sua fala possui a mesma clareza de pensamento da escrita – sua prosa acabou se tornando, ao longo dos anos, mais direta, em especial a partir de O informe de Brodie, mas já nos tempos de Ficções e O Aleph era clara (e elegante) o suficiente. A clareza era mais do que uma opção estética para ele; era um princípio, uma ferramenta que trabalhava em favor do prazer do leitor ou ouvinte. Em outra passagem de Esse ofício do verso, comenta: “Sempre que folheava livros de estética, tinha a desconfortável sensação de estar lendo as obras de astrônomos que nunca contemplavam as estrelas. Quero dizer, eles escreviam sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa, e não o que é em realidade: uma paixão e um prazer”. Do ficcionista, o conversador assimila a ironia, e completa a receita com uma dose de veneno autodepreciativo revestido de falsa modéstia. Estamos diante de um homem sereno, que aceita a proximidade do fim, distante da juventude na qual sonhava em sofrer como Hamlet e Raskolnikov.
Osvaldo Ferrari recorre aos assuntos centrais do percurso intelectual de Borges: Bioy Casares, Dante, Emerson, Stevenson, David Hume, Bertrand Russell, Melville, Poe, Kipling, Spinoza, Sarmiento, Lugones, Macedonio Fernández, o Quixote. E vê-lo fazer o feijão com arroz é maravilhoso. É como adentrar, com o perdão da alusão infame, um jardim de veredas que se acumulam. Borges reclama da injustiça de reduzir Chesterton a um escritor católico e de opiniões fortes. Vê nas histórias do criador do Padre Brown tanto um pintor (o que ele, aliás, era, antes de desistir e apostar na escrita), pelas descrições detalhadas que funcionam como paisagem, quanto um dramaturgo, cujos personagens entram e saem de cena como atores, e um autor de parábolas, por seu conteúdo moral. Classifica Yeats como o maior poeta de língua inglesa, enquanto chama as composições de Joyce de “peças de museu da literatura”. Enxerga no romance um instrumento que fomenta a vaidade e o egoísmo, num sentido positivo. De Henry James nota que era um criador de situações, e não de personagens, ao contrário de Dickens. Partia de um conflito e então criava os tipos necessários para desenvolver essa “palpitação inicial” (para usar a expressão de Nabokov). Conseguia, assim, manipular personalidades de modo a criar aquela ambiguidade tão comentada e, no entanto, tão pouco compreendida de seu trabalho.
Nos três livros encontramos ainda observações sobre assuntos um pouco menos comentados pelo argentino em entrevistas e ensaios, principalmente política. Borges se revela um liberal ao condenar, não uma vez, nem duas, mas várias, a presença sufocante do Estado na vida dos indivíduos; a direção do Estado, diz, leva à opressão e propicia a ascensão do nazismo e do comunismo. “Atualmente eu me definiria como um inofensivo anarquista, ou seja, um homem que quer o mínimo de governo e um máximo de indivíduo”. Um anarquista inofensivo que sofreu por se opor a Perón e mais tarde deixou de ganhar o Prêmio Nobel por ser considerado “reacionário”, enquanto um autor muito menor, como García Márquez, foi laureado, apesar do apoio à sangrenta ditadura de Fidel Castro. Música (jazz) e artes plásticas (Turner e Ruskin) também irrompem aqui e ali nos diálogos. E a escrita, é lógico, o combustível essencial de Borges, é celebrada quando o escritor se identifica com a dedicação monástica de Flaubert. “Se fosse Robinson Crusoé em minha ilha deserta, eu continuaria escrevendo. Ou seja, eu não escrevo para ninguém, eu escrevo porque sinto uma íntima necessidade de fazê-lo”.
Leia também:
Borges e uma história da escrita
Marcadores: literatura

1 Comments:
Faltou um detalhe que acho importante acrescentar: Borges era gago. E quando escuto as muitas entrevistas que tenho no meu acervo, o ritmo da fala por momentos pára... Com uns ouvidos um pouco mais treinados, acostumados com sua conversa, poderíamos ouvir ele tentando, fazendo força para articular a palavra que não consegue dizer. Quem não está habituado, realmente estranha... Pensa que a gravação está falhando. Curioso é também assistir suas palestras. Tenho algumas e o efeito da “parada” parece um pouco mais perturbador, já que agora podemos ver a força do gesto cada vez que sua fala “trava”.
Possuo, quase que de forma inédita, também uma entrevista dele com meu amigo, o jornalista e escritor argentino Esteban Peicovich, onde no meio da reportagem, Borges lhe pede que, por favor, o ajude a ir até o banheiro. O detalhe é que a gravação não para, e ele o conduz do braço, colocando-o de frente ao vaso sanitário. Assegura sua bengala, dá um passo para trás e fica na assistência... Nesse instante acontece o diálogo mais absurdo e literário (que tenho gravado e cedida pelo seu autor), onde Borges conta como apelidou seu membro e o porquê... Não consegui colocar este diálogo no meu Blog por pura incapacidade... Até escrevi um post referente a isto “Borges e seu "John Thomas" no banheiro”.
Estas entrevistas publicadas recentemente por aqui foram palco de sérias disputas judiciais com sua mulher, e atual herdeira dos direitos universais das obras completas do autor, Maria Kodama.
Abraço e parabéns pelo post.
Postar um comentário
<< Home