Domingo, Janeiro 10, 2010

O muro, as rãs e as novas vidas

Durante as comemorações dos vinte anos da queda do Muro de Berlim, em novembro passado, pouco se comentou uma obra bastante pertinente, lançada no Brasil exatamente naquele momento. O calhamaço (quase 800 páginas na edição nacional) Vidas novas, do alemão Ingo Schulze, de quem a Cosac Naify publicou em 2008 a coletânea de contos Celular, é um poderoso documento sobre os meses que antecederam e sucederam o fim da Alemanha Oriental, uma pérola que nos faz lembrar os bons tempos em que romances muitas vezes serviam como uma reflexão mais precisa e relevante de um determinada época ou fato histórico do que os livros escritos por historiadores. Diversos clássicos se encaixam no perfil: Guerra e paz, A montanha mágica, Luz em agosto, O homem sem qualidades, Os sertões... Além dessa qualidade tão fora de moda (apesar de algumas valiosas exceções: Austerlitz, de W.G. Sebald, Respiração artificial, de Ricardo Piglia, A marca humana, de Philip Roth) e da ambição narrativa – “Ingo Schulze é um escritor épico”, afirmou Günter Grass –, que, é preciso dizer, às vezes o torna um pouco excessivo, Vidas novas ainda comete a ousadia de ser um romance epistolar, gênero cujo auge de popularidade se deu no final do século 18.

Uma obra ultrapassada, portanto? Longe disso. Schulze soube adaptar a antiga teoria do romance total a um procedimento bem contemporâneo. Em um texto introdutório, o escritor explica que, à procura de um tema para um livro, deparou com uma montanha de cartas escritas por um certo Enrico Türmer, alemão oriental e aspirante a escritor. As missivas foram escritas ao longo de alguns meses de 1990 para sua irmã Vera Türmer, o amigo de infância Johann Ziehlke e a amiga/namorada/amante platônica (nunca se sabe com exatidão) Nicoletta Hansen. Elas compõem Vidas novas, e Ingo Schulze se apresenta como um mero organizador e autor de notas de rodapé. O tradutor brasileiro, Marcelo Backes, ele próprio ficcionista (seu Maisquememória é leitura recomendada), também inclui por conta própria observações e notas complementares. Como num volume de não-ficção. É lógico que isso é apenas um truque metalinguístico para embolar as noções de realidade e ficção, mas felizmente não se trata de um daqueles artifícios pelo artifício, tão comuns em autores de pretensões pós-modernas. O truque possui uma raison d’etre, a de intensificar a falta de confiabilidade de Türmer ao contar a história por meio de sua correspondência, e assim estimular a imaginação do leitor em relação às lacunas deixadas pelo caminho. Não são poucas as situações em que Schulze, numa nota, contradiz algo dito pelo personagem.

Dono de uma vida íntima misteriosa – há insinuações de incesto com a irmã e mesmo um caso com o amigo Johann –, Enrico Türmer começa a história como funcionário de um jornal recém-lançado em uma Alemanha recém-unificada. Nas cartas a Vera e a Johann ele narra o cotidiano da redação, fala do casamento com a atriz frustrada Micaela, do enteado Robert, de certo barão milionário que ajuda a bancar a publicação, um Mefistóteles para esse Fausto que é Türmer. Ao mesmo tempo, disserta a Nicolette sobre sua juventude e os tempos de Muro, até chegar ao clímax da derrubada. O que há de comum nas duas narrativas, e faz de Vidas novas o registro de uma época, é a tentativa de captar como os alemães orientais de fato vivenciaram a reunificação. Schulze, naturalmente, ressalta a enorme evolução material e financeira, mas também o bem sem preço que é a liberdade. Bem, isso todas as reportagens sobre as duas décadas sem o muro trouxeram. Só deixaram de explorar a inevitável crise de identidade sobre todos aqueles que viram suas vidas se transformaram radicalmente de um dia para o outro. Uma nova existência a partir das ruínas de um muro. Não importa se para melhor: ainda assim, trata-se de uma reviravolta considerável.

Tratado pelo autor alemão como uma figura patética, Türmer atravessa o romance dividido entre o beijo do dinheiro e a antiga identidade. Escrevendo a Johann, ele relembra uma parábola contada pelo barão, que sintetiza a dificuldade vivida pelos personagens. Quando se aumenta a temperatura da água em um grau, a rã que estiver por ali será cozida, embora possa saltar para fora, caso queira. E, no entanto, ela fica. Depois de décadas sendo controladas pelo governo e espionadas pela Stasi, todas aquelas pessoas da Alemanha Oriental ainda precisavam aprender a ser livres. A reunificação simbolizava algo mais do que poder comprar Mercedes ao invés dos velhos Trabants.

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1 Comments:

At Janeiro 10, 2010 1:31 PM, Blogger Regina Carvalho said...

Deu vontade, mas 800 páginas! Dá preguiça: não de ler, mas de segurar,hehehe...(Vergonhoso, né?)
bj

 

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