Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Por uma literatura de sangue, suor, lágrimas e idéias

Já me perguntaram por que, em meus textos, pareço pegar no pé de autores que praticam pós-modernismos. Pois bem. Eu realmente tenho um problema com isso. Não com a literatura pós-moderna em si – gosto de vários escritores que, mal e mal, se encaixam no rótulo –, e sim com os “truques” lingüísticos e estruturais que às vezes acompanham o gênero. Um trabalho tão excessivo no uso da linguagem que a narrativa em si, além dos personagens, fica em segundo plano. Tanta pirotecnia acaba por tornar o texto vazio, cerebral demais e sem a emoção para fazer um fundamental contraponto.

Eu acho que há um limite. Um ponto imaginário que os autores deveriam mirar: até esse ponto, a experimentação não só é bem-vinda como se faz necessária. O problema é que muitas vezes esse ponto-limite é ultrapassado, o que resulta em obras mais semelhantes a experiências masturbatórias que agradam apenas ao próprio criador delas, não provocando prazer algum no leitor. O leitor. Ele não deveria ser a parte mais importante do processo, afinal? Sobre o ponto-limite, um exemplo: é mais ou menos a diferença entre Ulisses, criativo, cheio de vigor formal, e que também instiga e dá prazer, e Finnegans Wake, ilegível, um mero pedaço de nada destinado a enfeitar estantes sem nunca ser digerido para valer. As obras-primas de Faulkner ou Borges também acertam no ponto-limite.

Em seu primoroso discurso apresentado ao receber o Prêmio Nobel, Saul Bellow, utilizando Joseph Conrad como base, fez uma defesa da literatura de personagens. Bellow atacou Alain Robbe-Grillet, principal artífice do nouveau roman, por proferir que “o romance de personagens pertence inteiramente ao passado”. Uma forma obsoleta, a seu ver, mais adequada ao pessoal do longínquo século 19. O futuro, dizia Robbe-Grillet, era escrever com completa objetividade e concretude. Com ausência completa de adjetivos e total onisciência, como num roteiro cinematográfico (ou um telegrama...). Ao invés de indivíduos, sinal claro do domínio burguês nas letras do passado, entidades. “Coisas”. Curiosamente, elegeu Flaubert como modelo. Usar o criador de Emma Bovary, Bouvard, Pécuchet, Frédéric Moreau e Felicité para atacar os personagens: não deixa de ser engraçado.

Inútil dizer que as teorias de que o romance está morto pululam a todo momento por aí. Com cinema, televisão e internet, quem vai ter tempo para se dedicar a uma leitura de 500 páginas? Se isso é verdade, imagine um cidadão médio lendo 500 páginas de um tratado pós-moderno, um daqueles que exigem um guia para explicar a multiplicidade de referências? Eu acho o contrário: esta é uma época propícia para o romance. Ora, não é raro vermos dois ou três blockbusters correspondendo a três quartos das salas de cinema do país. Harry Potter, Homem-Aranha, Shrek, mesmo com suas qualidades: o que dizem sobre nós hoje? Há referências neles, é claro, e o filme dos sempre ótimos Simpsons vem aí para corroborar isso. Entretanto, salvo algumas exceções em outras artes, é a literatura que deveria estar falando sobre a nossa vida, sobre o modo que vivemos hoje. Registrando para as próximas gerações um entendimento do que passou. É por acreditar nisso que critico as tais pirotecnias, nada atraentes a não-leitores. É preciso recuperar o principal aspecto da literatura, o prazer de sermos outros naquelas páginas, e ao mesmo tempo nos vermos ali. Talvez com isso as pessoas não precisassem se entreter com o Second Life... E podem me xingar por isso, mas considero muito mais relevante a edição dos contos “caretas” de Bernard Malamud do que as 500 páginas do “inventivo” novo (e chato) catatau de António Lobo Antunes.

Não estou pregando um retorno à maneira como se escrevia romances há cento e poucos anos atrás. Seria patético escrever como Machado de Assis ou Tchekhov no século 21. E também não se trata de fazer apenas realismo: a quantos exemplos podemos recorrer de obras alegóricas ou fantásticas que nos fizeram e fazem entender melhor a condição humana? Kafka, Gogol, Rulfo, vários, vários. Em suma, o essencial é atingir o ponto-limite que comentei acima, entre o experimentalismo e a legibilidade, entre o cerebral e o emocional. Uma literatura de sangue, suor, lágrimas – e idéias, pois sim. Amós Oz e Orhan Pamuk dizem muito mais sobre a vida hoje em seus confrontos de idéias literários do que dando entrevistas ou participando de ativismos políticos. A seu modo, ocupam, ou deveriam ocupar, os lugares de gente como Thomas Mann e Dostoiévski no passado. Sabe, a época em que os escritores captaram e influenciaram nossa maneira de ser e pensar (Einstein dizia que Dostoiévski o influenciou mais do que qualquer cientista). Concordo com Harold Bloom quando ele fala sobre Shakespeare ter “inventado” o homem moderno.

E nem é demérito da literatura. Os autores estão aí, falando sobre nós, em termos de política, arte, ciência, filosofia e relações. O problema é que o público não chega até eles. Esse lapso na comunicação faz os apocalípticos repetirem a história de fim do romance. Quem são as “nossas” vozes? Além de Oz e Pamuk, Saul Bellow, Philip Roth, Ian McEwan, Thomas Bernhard, W.G. Sebald, Kenzaburo Oe, Cormac McCarthy, John Updike, J.M. Coetzee, Ernesto Sabato, José Saramago, Don DeLillo, Juan José Saer, A.B. Yehoshua, Gabriel García Márquez, Imre Kertész, os nossos Raduan Nassar, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho – e tantos outros. Não duvido que alguns desses sejam acusados de “ultrapassados” por um leitor moderninho. Ora, para você também não faltam trabalhos que, além da preocupação com uma grande história e de trazer boas figuras humanas, apresentam um meticuloso trabalho formal: Os Emigrantes, de Sebald, Ver: amor, de David Grossman, Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño. O equilíbrio entre suor e neurônios de uma linhagem legada por Dom Quixote, passando por Tristram Shandy, Luz em Agosto, Fogo Pálido, Mason & Dixon. Também é importante ser atemporal. Ainda que seguindo o exemplo de Tolstói, de falar sobre sua própria tribo para ser universal. Não consigo imaginar uma narrativa de Alice Munro se tornando datada.

Não peço com isso que a literatura tome uma posição central na vida humana contemporânea. Pelo contrário. Seu lugar é o da poltrona sob o abajur. Na cabeceira, antes do sono. No ônibus, já que precisamos agüentar os engarrafamentos. Não como pregação política-pública ou um fenômeno coletivo: apenas a transformação particular, pessoal e intransferível que um livro pode provocar com sangue, suor, lágrimas e idéias, diferente para cada leitor. Uma silenciosa e necessária revolução.

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8 Comments:

At Agosto 15, 2007 9:26 AM, Blogger osrevni said...

O que mais me irrita nos autores... er, contemporâneos... é que "ser ousado" virou um atributo literário. Aliás, o único. Está bem que nada mais choca ninguém, mas, mesmo assim, todo mundo tenta. Qualidades dramatúrgicas, domínio do texto e coisas assim são relegadas ao limbo. Não é à toa que conheço gente que só lê livros escritos há mais de 50 anos!

 
At Agosto 15, 2007 11:34 AM, Anonymous Anônimo said...

Perfeito é o melhor adjetivo para este seu texto!

Continue escrevendo sempre! Suas críticas e dicas são excelentes!

Obrigado,
Paulo

 
At Agosto 15, 2007 12:15 PM, Anonymous N.C.E. said...

Jonas, concordo com o que foi escrito aqui. Eu tenho 21 anos e sinto que o grande problema da literatura do NOSSO tempo é o seguinte: com o "fim do romance", o advento da internet, da psicanálise e da "morte de Deus", o homem teria perdido a ligação com a História, como se estivesse vivendo num eterno presente. Não que eu concorde com isso, Dante ainda é fundamental na minha vida, mas é assim que interpreto a falta de um projeto na vida dos meus amigos e conhecidos. A filosofia e as artes, que caminham de mãos dadas, parecem tentar se adequar ao nosso tempo, agora, ao invés de transformá-lo. Parece querer legitimar a tal "fragmentação do sujeito", ao invés de combatê-la, de dar ao homem um sentido, uma dimensão humana.

A literatura da qual você fala, essa arte transformadora, que te permite sair do mundo e viver um outro, ser um outro, não teria mais lugar na vida dos homens de nosso tempo, já que eles já podem ser um outro, sem para isso mergulhar nas páginas de um ficcionista, seja ele competente ou não.

Os escritores da minha geração são mais pescadores de referências do que qualquer outra coisa. Se não há projeto de vida, como haverá projeto literário? Eu sou daqueles que, como você, penso, ainda acreditam no poder da palavra, da vida como literatura e da literatura como vida. Você não pede que ela, a literatura, torne-se parte central da vida, mas pede que o homem se renda a ela.

Como, se Deus está morto e nós somos oniscientes? Para quê?

A grande literatura ainda resiste, ainda é produzida, e os leitores que a encontrem. E, aos candidatos a escritor, que sejam obcecados, que acreditem no que fazem; que cada palavra seja o combustível para a vida. Literatura de passatempo não é literatura, é texto. A linguagem nunca foi tão mal empregada como hoje. Joyce sabia o que fazia; a nova geração escreve aleatoriamente, como se a língua não tivesse história, sentido, significado. Essa ausência de tudo é que pode dar um novo e interessante sentido ao ato de ler.

Desculpe-me pela longa mensagem. Parabéns pelo texto, teu desabafo é o da literatura.

 
At Agosto 15, 2007 12:31 PM, Blogger vinicius jatoba said...

Calma, rapaz! Vai acabar tendo uma síncope assim... A verdade é que narrar se tornou um pecado, mas não para todo mundo. Eu adoro ouvir uma boa estória, os leivros continuam mundo a fora os mimos que recebíamos das avós e mães e tias... Por isso que meu autor favorito é o Balzac, fico pasmado naquele mundo, andando de um lado para o outro, avançando num espetáculo magnífico de seres humanos e suas misérias e riquezas. Parabéns pelo texto! Só tome cuidado para não ficar com cabelo branco antes da hora.

 
At Agosto 16, 2007 2:24 PM, Anonymous Roberta said...

Parabéns pelo texto. Demonstra grande amor à leitura. É muito bom "ouvir" essas coisas. Pelo prazer da literatura!

 
At Agosto 17, 2007 5:01 PM, Blogger Olivia said...

Texto bem oportuno. Penso sempre nisso, no malabarismo inócuo dos autores de hoje, que esquecem que um livro é feito de uma boa história e de personagens, por favor! Vi um pouco disso até no Budapeste, do Chico Buarque. Será que é por isso que "anacronismos" como Harry Potter atraem tanto, até a leitores mais "experimentados"?

 
At Setembro 13, 2007 5:39 PM, Blogger John said...

Creio que a literatura é a arte das palavras... o que sinto hj... que pega e me machuca qdo vejo que algo que as pessoas consideram grande é simplesmente uma ideia boa escrita de qualquer forma.

gosto de viajar.. e as vezes imagino que é algo cultural mesmo... algo meio "punk"... faça voce mesmo, é agora meio que um lema... nao se importe muito com o que faz... enfim.. é um pouco de mistura de conceitos.. mas como um torneiro pode ser presidente... uma sexologa que nunca trabalhou prefeita.... ou mesmo a tempos um artigo na folha me assombrou, um gilberto braga ser comparado a machado de assis... mostra que existe uma distorção de valores imensa.

 
At Setembro 13, 2007 11:43 PM, Anonymous Ronaldo Pereira said...

Creio que o problema principal da literatura atual seja a noção de "progresso", que aparece aqui como uma sucessão de malabarismos verbais, muitas vezes esterilizantes. Joyce e Faulkner são nomes importantes no avanço dos horizontes do romance, no entanto, ao contrário dos escritores atuais eram artistas extremamente autoconscientes, sabendo o que estavam fazendo, apesar de Joyce haver chegado a um labirinto sem saída com Finnegans Wake. Para a maior parte dos autores modernos o que é importante são as proezas verbais, não a apresentação de verdades universais de forma inteligível. O virtuose da língua, esconde assim, sua impotência em buscar a "verdade", sem a qual toda literatura perde o seu valor.

 

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