Ficha de leitura - Proust, partes 3 e 4
A arquitetura narrativa de Marcel Proust é estruturalmente perfeita. Fascinado por catedrais góticas, Proust elaborou seu ciclo de forma simétrica, sem pontas soltas. E como No Caminho de Swann e À Sombra das Moças em Flor eram romances que se completavam, na formação emocional e intelectual do jovem Marcel, O Caminho de Guermantes e Sodoma e Gomorra são xifópagos. Há menos divagação interior e mais festas, salões e jantares – em Guermantes há uma recepção que dura quase cem páginas. Proust, tão sensível em desvendar os pormenores da alma humana, revela sua habilidade também como romancista de costumes.
Vemos ali o contraste entre nobreza e burguesia, já ensaiado no livro anterior, agora potencializado. Proust expõe o ridículo dos dois lados. A futilidade dos aristocratas, seu intelectualismo vazio versus o mundanismo e as tentativas patéticas dos novos-ricos de adentrar a alta sociedade. As marquesas e condessas formam opiniões de acordo com o que pega bem na sociedade. Como a mulher que admira Debussy e despreza Chopin. Ao saber que o segundo foi a maior influência do primeiro, passa a admirar o pianista polonês. Por outro lado, percebe-se o respeito do autor pela tradição dos nobres. Para ele, “os Guermantes – pelo menos os dignos desse nome – não eram apenas de uma qualidade de carnação, de cabelo, de olhar transparente e refinado, mas possuíam uma maneira de andar, uma postura, uma forma de saudar, de olhar antes de apertar a mão, pelas quais eram tão diferentes em tudo isso de qualquer homem mundano como este de um camponês em mangas de camisa”. Nessa época o anti-semitismo estava forte na França, culpa do Caso Dreyfus, comentado em todas as conversas.
O narrador começa O Caminho de Guermantes livre da paixão por Albertine, que tanto o fez sofrer em À Sombra das Moças em Flor. Agora seu amor é ainda mais complicado (e proibido): a duquesa de Guermantes, aristocrata casada e muito mais velha. A fim de esquecer a paixão, viaja para a cidadezinha onde seu amigo Robert Saint-Loup (sobrinho da duquesa) serve como soldado. Há um trecho belíssimo aqui, quando Marcel passa a primeira noite no hotel da cidade, ele que sempre sofre nas primeiras noites. Em Proust, há poesia até no acordar:
“Quando acabara de dormir, atraído pelo céu ensolarado, mas retido pelo frio das derradeiras manhãs, tão luminosas e gélidas, em que principia o inverno, eu, para completar as árvores em que as folhas estavam indicadas apenas por um ou dois toques de ouro ou de rosa que pareciam ter ficado no ar, numa trama invisível, erguia a cabeça e esticava o pescoço enquanto mantinha o corpo meio escondido nos cobertores; como uma crisálida em vias de metamorfose, eu era uma criatura dupla cujas diversas partes não convinham ao mesmo ambiente; a meu ver, bastava a cor, sem calor;”.
Um episódio essencial para o ciclo é a morte da avó de Marcel. Após esse primeiro contato direto com a morte, o narrador termina sua transição entre a adolescência e a maturidade, pois “uma mudança de tempo é suficiente para recriar o mundo é nós mesmos”. Volta Albertine, seu antigo amor. Mas ela ainda não consegue despertar os velhos sentimentos. Marcel está mais preocupado em aproveitar os salões e entender o estranho barão de Charlus, irmão do duque de Guermantes.
O barão é a estrela de Sodoma e Gomorra. Se entre os dois primeiros livros do ciclo havia um espaço de tempo, o quarto começa no mesmo período em que termina o terceiro. A diferença é conceitual: o novo tema é homossexualismo. O narrador vê o Sr. de Charlus se divertindo com um lacaio, e compara a inversão sexual à fecundação das flores. E como Proust é perfeito na caracterização dos personagens! Tamanha ambivalência, só em Henry James. Todos são bons e maus, adoráveis e detestáveis. Até aqui eu havia detestado o barão; agora percebi o quão fascinante ele é (e manipulador, quando conhece o arrivista e dublê de violinista Charlie Morel). É assim com os outros. Você passa do ódio ao amor pelo personagem em um meia dúzia de linhas.
Depois de mais alguns jantares na linha de O Caminho de Guermantes, Marcel vai com Albertine para o balneário de Balbec, onde se conheceram anos antes. Lá passam a freqüentar o grupo da Sra. Verdurin. Outro exemplo da circularidade narrativa de Proust, pois em Um Amor de Swann, segundo capítulo de No Caminho de Swann, Charles Swann se apaixona por Odette de Crécy na casa dos Verdurin e inicia uma crise de ciúme. É o que acontece com Marcel. Ele desconfia que Albertine mantenha relações com outras mulheres. Ainda é só um ensaio, perto do que sentirá em A Prisioneira. Sim, porque eu estou atrasadíssimo nesse fichamento – estou começando agora a ler o sétimo e último livro do ciclo...
Marcadores: literatura

1 Comments:
mas que bela análise! Me deu até mais vontade de ler Proust e começar a estudar francês! Vontade
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