Textos novos
O Último Segundo publicou duas resenhas minhas. Uma sobre Austerlitz, do alemão W.G. Sebald. A outra sobre 40 novelas, do italiano Luigi Pirandello.
Acordes assimétricos. Palpites dissonantes. Puro formalismo atonal.
O Último Segundo publicou duas resenhas minhas. Uma sobre Austerlitz, do alemão W.G. Sebald. A outra sobre 40 novelas, do italiano Luigi Pirandello.
“Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que você mesmo. Um artista é uma criatura arrastada por demônios. Não sabe por que o escolheram e normalmente está ocupado demais para se perguntar isso. É totalmente amoral, pois irá roubar, mendigar, pedir emprestado ou furtar de quem quer que seja para ver seu trabalho realizado (...) A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a “Ode a uma urna grega” (de John Keats, 1795-1821) vale mais do que qualquer punhado de velhas”.
Um blogueiro do Guardian escreveu sobre os livros cuja leitura ele indica na primavera (entre os autores citados, aliás, conheço apenas Henry David Thoreau), atual estação do hemisfério norte. Pensei em fazer a lista ao contrário: a de livros para o outono, para aproveitar os dias gelados por aqui. Minhas dez escolhas:
Há uma cena de O sonho de Cassandra, o novo filme de Woody Allen, em que o personagem de Ewan McGregor, ao constatar que será obrigado a matar o irmão após ter matado outro homem, declara: “é como um déjà vu, só que mil vezes pior”. O sonho de Cassandra provoca a mesma sensação. Faz lembrar Match Point, que por sua vez faz lembrar Crimes e pecados – e, tudo bem, não chega a ser mil vezes pior, mas de toda forma é bastante inferior a ambos. Já assistimos a todos os dilemas do assassino que enfrenta a própria moral nos outros dois filmes. Alguém pode argumentar que Woody Allen nunca foi um diretor pródigo em trabalhar com novidades. É verdade. Porém se seus filmes repetiam temas e caracterizações – o estereótipo do judeu neurótico, intelectual, com problemas existenciais e amorosos, por exemplo –, as piadas e soluções pelo menos eram diferentes, variações do mesmo tema, enquanto o discurso de O sonho de Cassandra não traz nada de novo. Outro assassino frio que mata e diz a si mesmo que o importante é seguir em frente, deixar para trás o que passou, não pensar no assunto e fazer com que ele se dissipe sozinho. A única diferença é que o cineasta, desta vez, pune o protagonista no final. O que não adianta muito, pois essa punição através do acaso, e não de um desdobramento jurídico ou uma revisão moral. As conclusões são dolorosas e sensatas. Se fosse seu primeiro filme sobre o assunto, mereceria elogios. Como é o terceiro, funciona como divertimento para os fãs. Afinal, ainda compensa sair de casa para ver Allen (quando não comete um Scoop...).
A edição de abril do jornal Rascunho traz uma crítica minha sobre Paris não tem fim, do espanhol Enrique Vila-Matas.
É triste ler as reflexões de Ernesto Sabato sobre os nossos tempos em A resistência. Triste porque o volume curtinho (pouco mais de cem páginas), composto de cinco cartas e um epílogo, dá sinais de que a acuidade metafísica do escritor argentino, autor dos maravilhosos Sobre heróis e tumbas e O túnel, começa a caducar (ele nasceu em 1911). Sabato escreve sobre os homens hoje, desde as formas de se relacionar até os efeitos causados por televisão e internet, e compara-o com o homem de décadas atrás. O outrora angustiado e angustiante romancista, investigador dos lados mais sombrios da alma e classificado certa vez de Dostoiévski portenho, tornou-se um arremedo de estóico, um sub-Sêneca, um pastor que conclamou para si a responsabilidade de nos salvar. Nada errado no estoicismo; o próprio Sêneca é essencial para nos compreendermos no que temos de mais generoso. Sabato, entretanto, substancia seus argumentos com idéias ingênuas e saudosistas, dignas de redação de vestibulando.
Contardo Calligaris – O conto do amor: é preciso um pouco de cuidado para avaliar O conto do amor, romance de estréia do psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris. Cuidado para não deixar o juízo enfraquecer: Calligaris tem, em sua coluna, uma abordagem tão gentil, sempre tão paciente com o leitor, tão carinhosa com as obras que comenta, que poderíamos cair na indulgência de ignorar os problemas de seu livro. Mas, antes, os elogios. O conto do amor se encaixa em um tipo de literatura rara no Brasil, que busca mesclar sofisticação narrativa com entretenimento – um pouco como o estilo do norte-americano Paul Auster. A premissa é boa: um psicanalista investiga o passado do pai, que pensava ter sido, em outra vida, o ajudante de um importante pintor renascentista. O problema é que Contardo espelha também alguns dos defeitos de Auster, como o narrador em primeira pessoa que escreve de uma maneira às vezes folhetinesca demais, preparando o leitor para o clímax em um suspense meio barato, e, problema mais grave, a fé inabalável na força do acaso. Como em alguns livros do nova-iorquino (Palácio da Lua, por exemplo), o quebra-cabeça da trama é solucionado com uma seqüência absurda de coincidências, a um ponto de tornar o desfecho da história inverossímil e irritante.
- Por que pega tão mal falar em prazer na leitura? A impressão que os pós-modernos passam é que provocar deleite no leitor é um pecado, quase a admissão de um crime, um erro capital. Muito mais interessante, parecem dizer, é tornar-se impenetrável, escrever de forma tão cerebral que é preciso ler com guia do lado para compreender a história. Truques, segredos, narrativas que se espelham – mas que são ocas, de tão vazias; basta um toque para rachar o vidro. Muita gente fez isso bem, misturar a longa meditação literária com o prazer que a leitura provoca: Faulkner, Woolf, Beckett, Borges, o Joyce de Ulisses, o último James. Voltando mais no tempo, Sterne. Aliás, mantenho opiniões contraditórias sobre António Lobo Antunes. Não tenho paciência para seus romances (troco facilmente qualquer um deles por uma mera narrativa de trinta páginas da “retrógrada” Alice Munro...), e, no entanto, respeito sua iniciativa de tentar colocar toda a vida dentro de um livro. Fora que é um excelente entrevistado, o Antunes. Só que não consigo me dispor a participar da experiência que ele se propõe a fazer. A culpa deve ser minha, é verdade; porém o que faz da literatura literatura é justamente conseguir fazer o máximo de pessoas penetrar a experiência da leitura. O que, por suposto, faz de Dan Brown o maior gênio do planeta. Será?
Um artigo recente do Los Angeles Times retoma a discussão tão batida do fim do crítico cultural. Hoje em dia, escreve o articulista Patrick Goldstein, os consumidores não procuram mais uma opinião “profissional”, teoricamente abalizada, para basearem suas compras. Ele usa o exemplo do filho de 9 anos que queria um jogo destruído por um crítico apenas porque seu amiguinho falou bem dele (do game). “Eu confio nos meus amigos mais do que naquele cara que escreveu a resenha”, argumentou o garoto. Goldstein afirma que houve um tempo em que os críticos eram os árbitros da cultura. Explicavam os significados da arte e guiavam os leitores a novas descobertas. Hoje, seriam sujeitos vistos como “dinossauros culturais em vias de extinção”.
Os críticos estão comparando o último filme de Wong Kar Wai, Um beijo roubado (tradução com a habitual competência brasileira para My blueberry nights...), a Paris, Texas, de Wim Wenders. Também pensei logo no caso de Wenders: um cineasta estrangeiro cultuado que resolve filmar a América e sua vastidão geográfica (outra coincidência entre ambos é a presença de Ry Cooder na trilha sonora). Kar Wai, naturalmente, mantém algumas das características do seu cinema, da radiografia dos sentimentos à falta de comunicação, passando pelo capricho no uso das cores. Um beijo roubado, mesmo assim, fica aquém de Amor à flor da pele e 2046 – para citar os dois mais recentes. O cineasta de Hong-Kong dá sinais de ter se entusiasmado pelos Estados Unidos, e sua história de desencontros amorosos ganhou um tom otimista que às vezes beira o moralismo (enquanto Wenders encontrou na vastidão do deserto o espírito do Travis de Paris, Texas). Veja como o afeto salva, o diretor parece pregar. Em Amor à flor da pele os vizinhos que descobrem que seus cônjuges são amantes sabem que não podem fugir da certeza de que foram derrotados; consolam-se pelo hábito, sem ilusões tolas. Em Um beijo roubado, ao contrário, os personagens esperam se redimir através do carinho. Como se apenas a falta de amor causasse tragédias como a do homem alcoólatra que não consegue esquecer a mulher. A vida, infelizmente, não é simples assim. Outro problema é a estrutura linear demais. Dá saudade das camadas temporais sobrepostas de 2046.
Em Kadish por uma criança não nascida, o escritor húngaro Imre Kertész, Prêmio Nobel de Literatura em 2002, coloca na voz do narrador um grito, quase um manifesto, que se repete ao longo do livro: “Não!”. Esse narrador é também um autor, B., questionado por um amigo se pretendia ter filhos algum dia. A vigorosa negativa é a resposta que dá ensejo a um monólogo febril de cento e poucas páginas, bastante inspirado em Thomas Bernhard (o enfant terrible austríaco é até citado no texto). A negação tão veemente do personagem faz sentido se lembrarmos que Kertész esteve preso em Auschwitz e sobreviveu à barbárie nazista. Parafraseando Adorno e sua célebre máxima sobre a poesia, como colocar uma criança no mundo depois de Auschwitz?
Nas bancas: a edição de abril da Bravo! (Roberto Minczuk na capa) traz uma crítica minha de Órfãos do Eldorado, novela de Milton Hatoum (só lembrando que eu e a Luciana Araujo entrevistamos o Hatoum há algumas semanas para o Último Segundo).
Ao contrário da recente montagem de Vestido de noiva, a versão de Antunes Filho para Senhora dos afogados (em cartaz no Sesc Anchieta, São Paulo) dispensa todo e qualquer aparato técnico, concentrando-se apenas no texto de Nelson Rodrigues. Como as outras peças do chamado grupo “mítico” do dramaturgo (Dorotéia, Anjo negro e a minha favorita dentre suas obras, Álbum de família), Senhora dos afogados possui conotação alegórica, de simbologia forte, sem conexões com alguma concretude espacial definida (bem diferente das suas “tragédias cariocas”, por exemplo). O mar, mais do que um depósito de vidas e ao contrário da visão mórbida que os personagens têm dele, é um bálsamo, um campo de redenção de pecados, um palco de expiações. Para Nelson, cada família infeliz é infeliz à sua maneira, mas há semelhanças: os Drummond de Senhora dos afogados padecem daquele amálgama tão rodrigueano de culpa e desejo; neles, o arrependimento caminha lado a lado com o afeto. Um se alimenta do outro. Nas paixões que sentem esconde-se a carência, e não há alívio para ela senão a morte.
“A amplitude emocional da obra de Bach em conjunto é imensa: basta lembrar a solenidade majestosa das fugas, o misticismo gótico dos motetos, o sentimento comovido das árias e dos largos, o demoníaco de uma hora de rebeldia como no Concerto para piano em ré menor e a elegância aristocrática das suítes e o humorismo burlesco da Cantata dos camponeses e a inocente alegria paradisíaca como no Concerto para violino em mi maior. Bach resumiu tudo isso e muito mais. Mas não resumiu todas as possibilidades da música. Não encontro entre as obras de Beethoven algo tão perfeito como os Concertos de Brandenburgo. Mas não encontro entre as obras de Bach algo que tão intimamente tocasse o coração como o Concerto para piano n. 4 ou O Trio Arquiduque ou as variações da Sonata opus 111 nem abstrações tão transcendentais como o Quarteto opus 132 e as variações sobre a valsa de Diabelli nem uma despedida tão humana como a última obra, o Quarteto opus 135.
Não é difícil compreender por que muitos críticos de música, sobretudo os de rock, tradicionalmente de panoramas culturais limitados, não gostaram de Não estou lá, biografia ficcional de Bob Dylan. Vai ver esperavam uma versão fiel da vida de Dylan – uma besteira, já que isso foi feito de maneira definitiva por Martin Scorsese no extraordinário No direction home. O filme de Todd Haynes pode não ter o imenso valor histórico do documentário de Scorsese, mas compensa pelo frescor que esbanja. Vários episódios da vida de Robert Allen Zimmerman são recontados de maneira livre (com destaque para as ótimas passagens da infância, com o surpreendente ator negro Marcus Carl Franklin) e misturados a fatos que envolvam o seu mito pessoal (como Billy The Kid), ainda que não tenham ocorrido. O cantor é “interpretado” por vários atores, quase sempre bem: Christian Bale (o melhor deles), Richard Gere, Heath Ledger, Cate Blanchett (incrivelmente parecida).
O compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886) costuma ser lembrado por suas Rapsódias húngaras, que demonstram melhor do que qualquer obra o seu incrível talento ao piano. Liszt era um virtuose, tecnicamente brilhante, e chegou a ser considerado o maior pianista de todos os tempos (tocava, além de suas composições, maravilhas de outros gênios). Por isso é interessante revisitar um Liszt diferente daquele do estilo veloz de boa parte das rapsódias (algumas delas - poucas - são orquestradas): o da sóbria e lenta Consolation no. 3, tocada por outro gigante do piano, o ucraniano Vladimir Horowitz (1903-1989). Sublime.
A edição de março do jornal Rascunho traz uma crítica minha sobre Molloy, o romance do irlandês Samuel Beckett.
Eu e a Luciana Araujo (colega de Copa de Literatura Brasileira) fizemos uma longa entrevista com o escritor amazonense Milton Hatoum para o Último Segundo. Milton fala principalmente de seu novo livro, a ótima novela Órfãos do Eldorado (minha crítica sai na próxima edição da Bravo!), mas também de literatura em geral, da escrita como ofício, de novos autores. Vale a pena dar uma olhada.
Está no ar o site, muito bonito, da edição deste ano da Copa de Literatura Brasileira. Entrem para conhecer os novos jurados e os livros que concorrem ao prêmio em 2008.
Não se trata apenas de uma tradução ruim e infeliz – transformar A era das trevas em A era da inocência; é uma tradução descabida, inadequada, incorreta. O novo filme do canadense Denys Arcand retrata uma época que nada tem de inocente. Bem pelo contrário: são tempos cínicos, em que os sentimentos estão mecanizados e mercantilizados, as relações viraram um jogo de máscaras, as ideologias cederam lugar ao pragmatismo e às conveniências. Arcand, um esquerdista desiludido, é inteligente o suficiente para não jogar a culpa no capitalismo ou no progresso tecnológico. Para ele a queda é moral, e não há direita ou esquerda que se salvem da corrosiva decadência do humanismo. Se o protagonista Jean-Marc Leblanc parece vazio, como apontou Inácio Araújo na Folha, é apenas porque ele espelha o vazio a sua volta.
Passou batido, em dezembro, o lançamento da coletânea Contos de amor do século XIX, organizada pelo ensaísta argentino Alberto Manguel. Uma pena, pois se trata de uma seleção excelente e variada da produção do mais importante dos séculos literários. Como toda iniciativa desse tipo, evidentemente, é desigual. Porém bem menos do que a média, até porque Manguel, que não é bobo, encheu o livro de autores clássicos: Tolstói, Machado, Balzac, Goethe, James, Eça, Pirandello, Stevenson e vários outros. O amor, aqui, se manifesta de formas distintas. Há o amor pigmentado pela culpa católica (na história de Leopoldo Alas); a devoção física não correspondida (Rudyard Kipling); o amor por um pai desconhecido (Ivan Turguêniev); o amor exótico de uma pantera por um soldado em pleno deserto (Honoré de Balzac); a relação guiada pelas convenções sociais (Edith Wharton) ou impedida por princípios morais (Liev Tolstói). Alguns relatos resvalam no fantástico, como os de Goethe e Eça de Queiroz. Já Oscar Wilde consegue extrair meiguice de uma fábula tola e juvenil. Entre os autores menos conhecidos no Brasil, vale destacar o inglês Anthony Trollope, adepto das tramas provincianas, personagens minúsculas e conflitos banais.
“Sou antes um leitor do que um escritor”, afirmou certa vez Jorge Luis Borges. De fato, é assim que costumamos imaginar o velho bruxo argentino – como um grande leitor. Um enciclopedista, o diretor da Biblioteca Nacional, passando tardes e mais tardes debruçado sobre manuscritos das localidades mais ermas da Terra – do oriente, em especial –, compilando citações, montando quebra-cabeças, transformando, enfim, uma estante inteira em um conto de meia-dúzia de páginas. Uma rotina bem compatível com a vida pessoal de Borges, solteirão durante grande parte da vida, filhinho da mamãe (com quem viveu e de quem dependeu emocionalmente até a morte dela, aos 99 anos), pouco afeito a celebrações literárias (passado o entusiasmo da juventude, quando freqüentava com Bioy Casares e Silvia Ocampo as rodas dos cafés de Buenos Aires) e, para completar, cego durante um tempo considerável de sua existência.A ausência da visão e as angústias que a cegueira pode provocar no escritor unem Jorge Luis Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce no curto e surpreendente Histórias de literatura e cegueira, do paulistano Julián Fuks (nascido em 1981), lançado há alguns meses pela Record. Com uma linguagem sutil, sem preocupações com a agilidade mas também sem cair em arroubos barrocos desnecessários, Fuks entrelaça biografia, ensaio e um pouco de ficção para recriar momentos de cegueira dos gênios. O resultado é bem interessante, essencial para os fãs do argentino, do pernambucano (que rende o relato mais comovente dos três) e do irlandês. Julián aceitou responder a algumas perguntas sobre seu livro.
"Todo livro poderia ser reduzido em 50%, na minha opinião, e mesmo os melhores em média só são legíveis em 20%. Debussy ouvia os leitmotivs de Wagner e dizia: ‘Vamos embora que ele vai começar a desenvolver’. Certo. Uma das minhas grandes dificuldades com romances é o negócio das descrições de ambientes. Não é que eu prefira o visualismo (passivo, objetal) que o cinema ou TV impõem ao espectador. É que não me interesso pela casa das pessoas. Havendo uma poltrona que agüente meu peso e tédio, ar-condicionado, álcool e gelo, dou-me por satisfeito.
Acaba de sair na Inglaterra o livro How fiction works, coletânea de artigos e resenhas do crítico literário britânico James Wood. Wood é um oásis no deserto do jornalismo cultural contemporâneo, um dos poucos ensaístas que ainda merecem a nossa leitura (e uma constante inspiração) e que ainda exercem alguma influência. Ainda jovem (nasceu em 1965), ele traçou um caminho que poucos críticos hoje seguem – todo no jornalismo, distante da academia. Só agora ele começa a dar algumas aulas de crítica literária em Harvard. A parte essencial de sua carreira aconteceu em jornais e revistas. Primeiro no Guardian, depois como editor do New Republic. Hoje escreve para diversos veículos, sobretudo o New York Times e a New Yorker. Por ignorar o jargão acadêmico e academicista, Wood é tido como um crítico “old fashioned”; sua abordagem é muito mais humana do que técnica. Não está interessado em sentidos, semiologias e discursos, mas em motivações e na psicologia de personagens. No que se aproxima bastante de Harold Bloom, talvez o principal crítico vivo.
E como Bloom, é bastante polêmico. Além de seu estilo clássico, Wood é considerado retrógrado por alguns autores e leitores por causa de sua visão da literatura. E tem um fundo de verdade: ele admira um tipo específico de romance, calcado no realismo psicológico, principalmente o do século 19. Seu autor favorito, por exemplo, é Tchekhov. É apaixonado também por Henry James, Jane Austen, Flaubert, Dostoiévski, Dickens, Ford Madox Ford (ótimo e esquecido). Entre os autores mais recentes, prefere os de estilo mais conservador, como Saul Bellow, por quem manifesta verdadeira adoração. Ou Alice Munro. Wood pega bastante no pé dos pós-modernos. Acabou cunhando um termo interessante, realismo histérico, de livros gigantescos e socialmente amplos, porém fracos na caracterização humana (entre seus praticantes estão Salman Rushdie, Thomas Pynchon, Zadie Smith e o chato David Foster Wallace). Ele apenas deseja ler histórias bem narradas, que independam de truques, com personagens tão vivos que transcendam as páginas do livro. Não dá para culpá-lo por isso. Dá para discordar; eu discordo bastante dele, e nunca deixo de admirar seu talento como argumentador. Sua especialidade, naturalmente, é a prosa de língua inglesa (escreveu há pouco tempo grandes textos sobre Exit ghost, de Philip Roth, e Diary of a bad year, de J.M. Coetzee). Entretanto, Wood está atento ao resto do mundo: escreveu um bom artigo sobre o chileno Roberto Bolaño para o Times e adora o alemão W.G. Sebald.
Seria ingenuidade esperar uma edição brasileira de How fiction works, já que livros de crítica raramente saem por aqui. Corram atrás do importado.
Foi bom ver que a Academia não caiu, como eu temia, no conservadorismo de premiar Desejo e reparação como melhor filme - já que Onde os fracos não têm vez e Sangue negro são muito mais sombrios e autorais do que as escolhas habituais do Oscar. O filme de Paul Thomas Anderson era meu favorito particular, mas o dos irmãos Coen é tão bom quanto, uma adaptação assustadoramente fiel do romance de Cormac McCarthy (lançado no Brasil como Onde os velhos não têm vez). Não vi Piaf; admiro Marion Cotillard, mas foi triste não ter visto Julie Christie ganhar como atriz por sua atuação delicada em Longe dela, baseado em um texto da maior contista viva, a canadense Alice Munro. No mais, nenhum grande destaque. Daniel Day-Lewis era uma justa barbada, assim como Javier Bardem.
A edição de fevereiro do jornal Rascunho traz uma crítica minha de Nas peles da cebola, polêmico livro de memórias de Günter Grass.
Nos últimos anos, toda obra artística de relevância produzida nos Estados Unidos possui o fardo de ter que retratar e retrabalhar o presente do país, a Era Bush, o pós-11 de setembro. Mesmo os livros ou filmes ou discos que se passem em tempos totalmente diferentes, caso do romance de Philip Roth Complô contra a América. Todo artista norte-americano contemporâneo, parece pensar a crítica de lá, está disposto a discutir isso – o que é uma tolice, pois as obras de qualidade são aquelas que sempre falam do presente falando do passado assim como falam do passado falando do presente. Sangue negro, o novo e incensado filme de Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie nights) deve ter passado bastante por isso. A ambição desenfreada que move seu protagonista, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, em atuação assombrosa), com certeza foi lida por alguns como a ambição de George W. Bush, o homem da ira santa, dos discursos quase eclesiásticos e da Guerra do Iraque.Suntuosa é a melhor definição para a montagem dos Satyros de Vestido de noiva (em cartaz até hoje no Itaú Cultural), a mais famosa das peças de Nelson Rodrigues. A companhia paulistana preferiu abolir a estrutura dos planos paralelos que tanto impressionou as platéias da década de 1940. Um acerto: apesar de ainda impactante, essa inovação acabou vulgarizada e banalizada pelo excesso de uso. A produção apela para a convergência de mídias – teatro, cinema, artes plásticas, ópera, moda – e ganha um ritmo ágil, assumidamente videoclíptico, com projeção de vídeos e filmes e uma trilha-sonora bem escolhida (Beth Gibbons, Radiohead, Björk, David Bowie). Pena que a produção seja, em geral, superior às atuações. Dá para destacar, no entanto, as performances da belíssima Cléo de Páris, como Alaíde, e da veterana Norma Bengell, como Madame Clessi.
“Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo muito recruzado (...) Quanto pior mais baixo e caiu, maismente um carece próprio de se respeitar. De mim, toda mentira aceito. O senhor não é igual? Nós todos. Mas eu fui sempre um fugidor. Ao que fugi até da precisão da fuga”. (João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas).
É sempre um prazer retomar o contato com a prosa de Vladimir Nabokov. Tive essa chance ao ler o seu terceiro romance, A defesa Lujin, ainda da época em que escrevia em russo e que acaba de ser reeditado no Brasil. Nabokov não escrevia, pintava suas frases intermináveis, repletas de adjetivos, descrições, arroubos poéticos e apostos (e nada de penduricalhos gratuitos). Esse estilo pictório deve parecer retrógrado para alguns, além de um tanto incomum nesses tempos em que o romance muitas vezes se aproxima do roteiro cinematográfico. Quem aprecia a boa carpintaria literária sai extasiado com as imagens e metáforas inusitadas do autor de Lolita e Fogo pálido (“As andorinhas voavam alto, seu vôo lembrando o movimento de uma tesoura ao cortar um molde”), com suas sentenças que possuem cheiro, cor e alma e que pedem a leitura em voz alta. O livro em que Nabokov está mais iluminado como prosador, vale dizer, é o volume de memórias A pessoa em questão (tradução infeliz para o divertido título original, Speak, memory).
A principal qualidade de A Love Supreme, livro do jornalista Ashley Kahn sobre a criação do mais famoso álbum de John Coltrane, é não cair na armadilha que costuma acometer os biógrafos do saxofonista: transformá-lo em uma aberração da natureza, um milagre de talento intuitivo que brota de cada gota de suor. Essa visão do gênio instintivo é bem explorada pelo jornalismo cultural em geral. Uma tolice. Coltrane era um talento extraordinário, revolucionário, mas explicável. Como conta Kahn (através de um respeitável corpo de entrevistas com familiares e outros músicos), Trane sempre manteve fixação pelo estudo. Passava horas praticando, mesmo depois de famoso, e nunca abandonou o desafio pessoal que continuar ousando, de nunca repetir os êxitos do passado. Da mesma forma que outros grandes artistas, como, digamos, Picasso, Faulkner ou Cassavetes, Coltrane atingiu o equilíbrio perfeito entre a inflexão emocional e o raciocínio intelectual: sua obra é difícil, cerebral, e requer atenção e paciência; a espiritualidade e paixão que exala, porém, transforma seus admiradores em seguidores (que o diga a Saint Coltrane Church). A prova de seu esforço contínuo está na evolução de sua carreira. Foram anos trabalhando como músico de apoio até que ele encontrasse o seu auge no quarteto clássico da primeira metade da década de 1960. Outra pessoa talvez tivesse se acomodado com o sucesso inicial...
O sempre ótimo jornalista Sérgio Augusto publicou outro dia no Aliás, d’O Estado de S.Paulo, um artigo pertinente sobre a praga dos filmes na tela do celular (apenas para assinantes). Está circulando na internet um vídeo de David Lynch descendo a lenha na tecnologia do iPhone – segundo Lynch, só sendo muito imbecil para se divertir assistindo um longa “on a fuckin’ telephone”. Vê quem quer, é claro, mas a onda, como observa Sérgio Augusto, pode afetar todo o modo como os filmes são produzidos, empobrecendo a direção, edição e os roteiros. Um dos magníficos planos abertos de Joel e Ethan Coen em Onde os fracos não têm vez (para ficar com uma obra recente) pareceria um mero papel de parede pobre e de mau gosto na “nanotelinha”.