(Texto publicado na quarta edição da Dicta&Contradicta).
São muitos os escritores historicamente injustiçados pelo mercado editorial brasileiro, mas poucos, poucos mesmo, foram tão massacrados quanto Saul Bellow (1915-2005). Seus principais clássicos saíram por aqui nas décadas de 60 e 70 em traduções muito mal cuidadas, e ainda assim heróicas porque únicas. A partir dos anos 80 a Rocco deteve os direitos de publicação de Bellow, mas lançou apenas suas obras mais recentes, sem nunca se dar ao trabalho de voltar aos sensacionais e obrigatórios
Herzog,
O planeta do Sr. Sammler e
O legado de Humboldt, encontráveis somente em sebos. Pois eis que o escritor, nascido no Canadá mas americano de coração, ganha uma segunda chance. A nova onda de reedições de sua trajetória tem início com
As aventuras de Augie March, romance nunca editado no Brasil. Não deixa de ser irônico: sucessores seus como Martin Amis, Christopher Hitchens e Salman Rushdie elegem
Augie March como o Grande Romance Americano, e todos eles são figuras fáceis em nossas livrarias. O mesmo vale para Philip Roth, Ian McEwan, Julian Barnes e tantos outros. Bellow é sem dúvida um dos alicerces da ficção de língua inglesa no século 20. Compõe, nas palavras de Roth, a espinha dorsal da literatura americana do período, ao lado de William Faulkner.
O fato de
As aventuras de Augie March ser o primeiro fruto do projeto de relançamentos da Companhia das Letras é, além de especial, bastante sintomático. Foi nele, afinal, que Bellow virou Bellow. Ex-trotskista com passagem pela Marinha Mercante na Segunda Guerra Mundial, o jovem professor universitário começou a carreira ficcional com
Dangling man (1944, traduzido no Brasil como
Por um fio) e
A vítima (1947). Irregulares, ambos trazem protagonistas angustiados em relação à própria existência, uma marca da influência de Kafka sobre o autor. O defeito principal dos livros, contudo, está no tom não apenas sério, mas grave; falta humor, capacidade de enxergar o que há de patético no que é triste e desesperador. Essa gravidade influencia a prosa de Bellow, até então travada e contida. Em 1948, numa virada de sorte, ele ganha uma bolsa da Fundação Guggenheim e se muda para Paris, onde dá início à redação de
Augie March, livro finalizado em Nova York e enfim publicado em 1953.
É covardia comparar o terceiro romance de Bellow a
Por um fio e
A vítima. A linguagem é leve, embora trabalhada, e os personagens irradiam sangue, suor e lágrimas; ódio e alegria; fervor e descontentamento. Como observou Philip Roth em um ensaio publicado na revista
New Yorker, comparando-o aos antecessores, em
Augie March “a escala aumenta de forma descomunal: o mundo se infla e os seres que o povoam, monumentais, dominadores, ambiciosos, enérgicos, são pessoas que dificilmente – para usar as palavras do próprio Augie – seriam ‘pisoteadas na luta pela vida’”. Ao longo de 700 páginas, na edição brasileira, acompanhamos o processo de formação dessa monumental, dominadora, ambiciosa e enérgica figura que é Augie March, filho de imigrantes judeus, abandonado pelo pai, irmão do odioso e bem sucedido Simon e do retardado Georgie, neto da assustadora e impositiva vovó Lausch.
As aventuras de Augie March é, acima de tudo, uma novela picaresca, que faria bonito se incluída na tradição dos calhamaços de Charles Dickens – ainda que o agudo e corrosivo espírito de Bellow assemelhe-se mais ao de Jonathan Swift. Aguarde, portanto, um relato episódico, fragmentário, com dezenas de personagens que vêm e vão dentro da trama (ou mesmo que vão e nunca retornam) e situações das mais imprevisíveis e variadas. Entre os acontecimentos vivenciados por Augie estão um aborto de uma vizinha, um roubo de livros, uma incursão pelo mundo do sindicalismo, uma tentativa de domar uma águia selvagem (para Roth, uma passagem entre homem e natureza de dimensão mítica comparável à de Faulkner no conto
O urso e no romance
Palmeiras selvagens) e até a experiência de ficar à deriva em pleno Oceano Atlântico, depois de ter um barco afundado por submarinos alemães. E por pouco Augie não trabalhou como guarda-costas de Trotski, cena inspirada na biografia do próprio Bellow, que viajou ao México para tentar conhecer o russo – mas o revolucionário foi morto antes de o encontro se concretizar.
À inflexão picaresca de
Augie March é preciso acrescentar o componente
Bildungsroman, o romance de formação de origem alemã. Como o protagonista de
Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe, Augie tem o desenvolvimento emocional-intelectual perpetrado pelo convívio com aqueles que atravessam seu caminho. “Por que é que eu tinha de estar sempre topando com teóricos na minha vida?!”, reclama. Ele ouve Einhorn, o vizinho aleijado e especulador, dissertar sobre a importância de ser um homem de ação; ouve Robey, o milionário gago que o contrata como ghost writer, reclamar de que “as má-máquinas vão produzir um oceano de mercadorias”; ouve Basteshaw, o carpinteiro, filósofo, cientista e parceiro em um bote à deriva no Atlântico explicar seu tratado sobre o tédio moderno, essa “obediência que não é dada voluntariamente porque ninguém sabe como pedi-la”.
Tanta metafísica é a perdição de Augie March, e também o elo entre ele e os futuros heróis de Saul Bellow, aqueles que costumam ser mais associados como modelo ideal de pensamento do autor, a exemplo de Tommy Wilhelm (
Agarre a vida) Moses Herzog (
Herzog), Arthur Sammler (
O planeta do Sr. Sammler), Charlie Citrine (
O legado de Humboldt) e Chick (
Ravelstein). De certa forma, eles, em sua angústia cerebral, são Augie amanhã. O menino pobre e aparentemente sem futuro conta os episódios de sua vida como lembranças. Embora não saibamos exatamente tudo o que lhe aconteceu até chegar ao ponto em que ele narra, é possível concluir que houve uma progressão intelectual considerável – há citações às pencas, de Homero, Horácio, Heráclito, Baudelaire,
Don Giovanni e, em especial, da Bíblia. Ou seja,
As aventuras de Augie March representa nada mais do que o caminho que leva os protagonistas de Bellow à situação desesperadora de acompanhar a falência moral do ser humano, provocada pela mecanização e pela selvageria da sociedade contemporânea. Arthur Sammler lamenta nossa época dada a explicações, de metrópoles “com ruas loucas, pesadelos sujos, monstruosidades vivas”; Mozes Herzog questiona se deve deixar os outros passando fome, enquanto desfruta “Valores antiquados”. Augie March também dá contribuições intelectuais pertinentes, típicas do estilo digressivo de Bellow:
“Todo ser humano tenta criar um mundo em que possa viver, e o que não lhe serve ele muitas vezes não vê. Mas o mundo real já está criado, e se sua invenção não corresponde a ele, mesmo que você se sinta nobre e insista que tenha de haver algo melhor do que isso que as pessoas chamam de realidade, esse algo melhor não precisa tentar exceder aquilo que, no mundo real, pode ser muito surpreendente, já que nós o conhecemos tão pouco. Se é um feliz estado de coisas, é surpreendente; se é triste ou trágico, não é pior do que o que nós inventamos”.E há em
Augie March, claro, a América, grandiosa e ambivalente, cruel e egoísta, tão picaresca quanto o próprio romance. “Sou americano, nascido em Chicago” é a frase que abre o livro, uma declaração orgulhosa até, quase um mantra ou uma carta de intenções. O que a torna mais comovente é o resquício de otimismo que exala, mesmo que a esperança seja dissipada conforme as páginas avançam. “Aqui tem o suficiente para todo mundo de tudo, inclusive penúria”, pensa Augie mais adiante. Tal reflexão o credencia perfeitamente como um desencantado da linhagem de Herzog, Sammler e todos os outros.
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