
O principal prazer que a “política de heterônimos” de Fernando Pessoa provoca talvez seja o da multiplicidade de pontos de vista que cada uma de suas personas representa. Tido pela crítica como o exemplo ideal da fragmentação mental, espiritual e intelectual do homem moderno, o poeta português se dividiu, mais exatamente, em 72 – a maioria desses heterônimos se perdeu ou não teve textos registrados. Os mais conhecidos e publicados (após a sua morte) são o pastor e pastoril Alberto Caeiro, o modernista Álvaro de Campos e o horaciano Ricardo Reis (é possível incluir na conta o prosador existencialista Bernardo Soares, autor do
Livro do desassossego e classificado por Pessoa como semi-heterônimo). Cada um teve a biografia e a personalidade demarcadas, em vários pontos tão contrastantes entre si que é difícil pensar que saíram todos da mesma mente (Octavio Paz declarou que não conseguia imaginar alguém mais diferente de Pessoa do que Caeiro, o que é discutível). Os leitores costumam eleger seus favoritos pessoais. Alguns chegam a admirar certo heterônimo em detrimento de outro.
Muito mais interessante do que pensar nesses heterônimos como figuras que se repelem é tentar encontrar, em suas peculiaridades, pontos em comum – ainda que efêmeros e nem tão significativos. Por exemplo, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Em teoria, são os opostos ideais dentre as criações de Fernando Pessoa. Reis, de educação jesuítica e formação médica, veio para o Brasil em 1919 (Pessoa nunca chegou a especificar a data de sua morte, o que levou José Saramago a imaginá-la em seu melhor romance,
O ano da morte de Ricardo Reis). É um homem sério, educado e conservador (é monarquista). Acima de tudo, é contido e estóico em relação à vida. Para ele, o essencial é viver o hoje, sem desperdiçar tempo com sofrimento e reclamação. A morte é apenas uma conseqüência, um passo a mais de uma existência de prazer e tranqüilidade. Não um prazer hedonista; mais como uma paz interior, sem grandes emoções. “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”, afirma. Sua poesia reflete essa personalidade serena: clássica, metódica, com atenção para as estruturas simétricas e para a palavra certa. Nada parece fora do lugar em seus versos.
Álvaro de Campos, o “engenheiro metafísico”, é um filho direto do modernismo literário. Já não exerce a sua profissão, preferindo vagar como um flaneur pelos cafés de Lisboa. Pessimista e sombrio, Campos vocifera contra a estupidez do simples existir (“Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer nada”; ou “A alma humana é porca como um ânus”), nada mais do que uma fonte de sofrimento. Ao mesmo tempo, sente prazer em seguir errando e produzindo aos montes, tanto poemas muito longos, com dezenas de páginas, quanto os de apenas uma frase, que se aproximam do aforismo. Classifica-se como “um pouco ateu”: por certo, é difícil imaginá-lo seguindo a sério doutrinas, sejam religiosas, políticas ou filosóficas. Passeia rapidamente por elas, o que explica as suas várias fases, notadamente a modernista/futurista, em que usa e abusa de onomatopéias, urros, fluxos de consciência e repetições. A relação de Campos com vida e morte é ambígua, niilista e contraditória. Parece odiar estar vivo (“A vida é uma quinta onde se aborrece uma alma sensível”; “Nunca fiz mais do que fumar a vida”), mas se recusa a dar cabo de si. Despreza a morte ainda que diga que quer ir para ela “como para uma festa ao crepúsculo”.
Como encontrar, então, um ponto de convergência entre a contenção de um e a euforia de outro? Entre a calmaria quase zen de Ricardo Reis e o furor explosivo de Álvaro de Campos – quando um aceita a morte e o outro a pragueja, é possível tropeçar em reflexões semelhantes?
Há quem considere Ricardo Reis um sábio. Ao mesmo tempo, há quem o considere ingênuo, incauto, com a sua filosofia sossegada, de “stóico sem dureza”. Trata-se de um acomodado, dizem, que pouco enfrenta o destino, preferindo deixar passar as horas, todas “plácidas”. “A vida passa e não fica”, escreve, “nada deixa e nunca regressa,/Vai para um mar muito longe”. Sugere ainda que gozemos o momento, “aguardando a morte/Como quem a conhece”. Tanto comodismo (digamos assim) seria resultado da educação jesuítica? Estaríamos diante de um espírito amansado, cujo aspecto eclesiástico passa a se manifestar conforme a idade avança? Os deuses são invocados a todo o momento por Reis. E, ironicamente, através dessa obsessão podemos ver o quanto o médico
não tinha de religioso. Sua relação com eles não é de devoção; antes de inveja e desprezo: “Quisera/Que um deus existisse/De mim”. Reis vê os deuses acima da verdade e da ciência. Devemos adorar “seus vultos como às flores”. Ele o faz? Tenta. Não consegue, porém, vencer a frustração de vê-los acima de sua humana mediocridade.
Porque por mais que tente seguir os próprios conselhos abnegados e viver contente com o que a vida lhe reserva (“Torna teu coração digno dos deuses (...) O que te acontecer/Aceita”), ele sempre se depara com a angústia que contamina seus ideais estóicos e plácidos. Pois a mesma voz que pede para aceitarmos o que acontece reclama que “não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube”; a mesma voz que declara que “a morte é cada dia” e que “suave é viver só” sofre a saudade de quem foi (“Quem fui é alguém que amo/Porém somente em sonho”); e, por fim, a mesma voz que sentencia que “a sperança é um dever do sentimento” admite que a tristeza e a amargura afogam “em confusão a streita vida” e que o “infortúnio mesquinho/Nos oprime supremo”.
Ricardo Reis deixa, aqui e ali, sinais de luz que iluminam seu rancor e a frustração contra a Providência que tanto desrespeitou a sua vida regrada e metódica. Se não chegou a ser um pastor e guardador de rebanhos, como Caeiro, ora, Reis bem que advogou contra as descobertas do homem em favor da espiritualidade (“Se a ciência é vida, sábio é só o néscio”). A negação da liberdade é outro de seus temas centrais. E que ele via como uma mania vil de quem desvia dos caminhos corretos, uma obrigação humana. “Ser livre é ser a própria imposta norma/Igual a todos”, afirma. Outro trecho: “Porque só na ilusão da liberdade/A liberdade existe”. Tamanha devoção de nada serve. Os deuses não lhe respondem, mesmo que ele implore que saiba “aceitar sem querê-lo, sorridente,/O curso áspero e duro/Da strada permitida”. Sem querê-lo? Aqui a segurança de Reis começa a despencar. Soçobra a feroz negação da liberdade: “Não quero, Cloe, teu amor, que oprime/Porque me exige amor./Quero ser livre”.
Tudo isso para, em uma das últimas odes de Reis que Fernando Pessoa nos legou, ele, que acreditava que “ao quem nada spera/Tudo que vem é grato”, agora confessar miseravelmente: “Sofro, Lídia, do medo do destino”. Assim, ele se entrega.
Álvaro de Campos, ao contrário, se refugia na misantropia radical. A fuga que empreende até o trecho mais fundo da própria alma – ignorando o resto do mundo, a imundície e a falta de moral de pessoas que vivem a trair e machucar umas às outras, ou mesmo amar pateticamente (todas as cartas de amor são ridículas, garante) – funciona como a couraça que o protege dessa podridão que, acredita ele, o cerca. Campos, ao mesmo tempo, sente muito e sente pouco. É um homem exagerado, movido a desespero e emoção, nunca a razão. Seu coração “é um albergue aberto”, e essa disposição a sentir com todas as forças acaba lhe trazendo mais sofrimento do que alívio – “porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir/E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz”. Recolhe-se mais ainda, a fim de se proteger.
Sua intenção é depender cada vez menos dos outros e, assim, não correr o risco de se machucar – “que maçada quererem que eu seja da companhia”, resmunga em “Lisbon Revisited”. Uma forma de atingir esse objetivo seria “poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina”. Sua forma de expressão, no caso, é a poesia (“o que é fazer versos senão confessar que a vida nos basta?”). Sua poesia, todavia, está longe de funcionar como uma máquina, ou seja, com regularidade, precisão e frieza, e Campos sofre ainda mais do que se tentasse manter uma vida social, ainda que sujeita à insensibilidade de outros. Continua isolado, esbravejando contra o funcionamento das coisas. Seu individualismo torto contrasta com o espírito social meio bonachão de Ricardo Reis. É, de toda forma, um individualismo falso, já que sua misantropia nada mais é do que anseio por carinho.
Como todo individualista de cunho sentimental, Álvaro de Campos é dado a momentos extremos de angústia. É nesses que momentos que manifesta a tristeza que seu auto-isolamento provoca. O ateu até pede paz a Deus, embora o chame de Deus Cristão falso, um “Deus absurdo de verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas/Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos”. A ironia com que trata Deus – “falso” – não esconde que ele enxerga na figura divina, no mínimo, um objeto de diálogo filosófico: “Cada alma é uma escada para Deus”, escreve. Quando não encontra conforto nessa disputa verbal contra Deus, que alterna respeito e raiva, ele implora por companhia, no poema “Diluente”: “Estou só no mundo (...) Posso morrer como ninguém.../Mas isto dói,/É indecente para quem tem coração”. A proclamada auto-suficiência se foi. Ele chega a admitir que as forças todas do universo estejam refletidas em sua alma. De tanto vestir as máscaras da segurança e da insegurança, dá sinais de confusão sobre quem é: usa monóculo “para não parecer igual à ideia real que faço de mim”, e lamenta “aquela falsa e triste semelhança entre quem julgo ser e quem eu sou”.
Conforme o tempo passa e o heterônimo envelhece, passando a ser o “engenheiro aposentado”, trata de voltar para o passado, mais exatamente para os anos de infância e juventude, substituindo os ares de enfant terrible por uma velhice palpitante, porém um pouco mais madura e nostálgica. Diz sentir saudades das festas de aniversários e confessa que quer “acabar sobre rosas, porque as amei na infância”. Pede até uma vida normal, usual, como a de alguém “que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada”. Adeus, misantropia.
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