Palavras, palavras, palavras
A Dicta&Contradicta disponibilizou em seu site toda a terceira edição da revista. Um dos textos é um artigo meu sobre o escritor espanhol Javier Marías e seu romance Coração tão branco. Aproveito para reproduzir o texto aqui.
Palavras, palavras, palavras
Publicado originalmente em 1992, Coração tão branco constitui-se em ponto fundamental na carreira de Javier Marías. Foi a partir dali que o escritor espanhol alcançou em definitivo a personalidade literária própria e intransferível que o consagrou nos romances seguintes, os sensacionais Amanhã, na batalha, pensa em mim (1994), Negro dorso do tempo (1998) e o tríptico Seu rosto amanhã (2002-2007). Filho do filósofo Julián Marías, o fiel discípulo de Ortega y Gasset (com quem fundou o Instituto de Humanidades de Madri, em 1948), Javier desde cedo foi educado para as artes, em especial literatura e cinema. Não surpreende que tenha estreado cedo: publicou Os domínios do lobo com apenas 19 anos, em 1971. O próprio autor hoje assume a imaturidade da estréia, que possui influência da Hollywood dos velhos tempos e de autores americanos como Dashiel Hammett, Flannery O’Connor e John O’Hara.
Javier Marías continuou escrevendo e sofisticando seu estilo, ao mesmo tempo em que labutava como professor universitário (chegou a dar aulas em Oxford) e tradutor. Verteu para o espanhol gênios como W.B. Yeats, W.H. Auden, sir Thomas Browne e Vladimir Nabokov (os Marías foram vizinhos do criador de Fogo pálido na época em que viveram nos Estados Unidos), com destaque para a premiada versão de A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, a obra-prima de Laurence Sterne, em edição com mais de mil notas publicada em 1978, quando Marías tinha menos de trinta anos de idade. “Sterne me ensinou a fazer um minuto durar oitenta páginas”, afirmaria o escritor madrileno alguns anos depois. De fato, sua ficção mais e mais deixaria transparecer a influência do pastor anglicano irlandês. O homem sentimental (1986) e Todas as almas (1988), embora ainda um pouco irregulares, já anteviam o tal “estilo Marías”. Faltava apenas aportar nele de vez, o que viria a acontecer, então, com Coração tão branco, seu trabalho mais conhecido e cultuado até hoje.
Algumas das peculiaridades de seu texto: sentenças enormes, em parágrafos que duram páginas; digressões igualmente longas, a ponto de os narradores (sempre em primeira pessoa) por vezes perderem o fio do relato para enveredar por uma série de caminhos tortos e por reflexões de cunho filosófico-ensaístico sobre vida, morte, amor, memória, política, artes e os efeitos da passagem do tempo; e, por fim, sólidos blocos narrativos, ou seja, um grupo relativamente pequeno de cenas detalhadas ao máximo e que concentram a ação do livro, à maneira de uma compilação de episódios. Características típicas de Sterne? Exatamente. E ele está em boa companhia: alguns dos outros (exemplares) modelos apontados pelo espanhol são Marcel Proust, Henry James, Joseph Conrad, William Faulkner, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, o conterrâneo Juan Benet e os mais recentes Thomas Bernhard (publicado na Espanha pela primeira vez por influência de Marías, então consultor da editora Alfaguara) e W. G. Sebald (que o classificou como “twin writer”). Pode parecer uma prosa difícil e cerebral, e realmente é, apesar de nunca ser impenetrável ou cair no hermetismo vazio. A prova disso é que, na Europa, Marías vende muitos livros. Coração tão branco, sozinho, chegou a mais de um milhão de cópias na Alemanha, por exemplo.
Juan, o protagonista do romance, poderia ser o narrador de qualquer outro dos livros da maturidade do autor – é como se cada novo título fosse uma pedra de um amplo e valioso vitral. Intelectual, sem muito traquejo para a vida prática, inclinado à metafísica e à adoração das mulheres, mesmo que tampouco seja muito esperto para tratar com elas. Como o próprio Marías esclarece em inúmeras entrevistas, todos os seus narradores são pessoas que, de uma maneira ou de outra, renunciam à própria voz: sejam cantores de ópera (O homem sentimental), intérpretes de línguas estrangeiras (Coração tão branco), tradutores de livros (Amanhã, na batalha, pensa em mim) ou mesmo agentes secretos que com um mero olhar dissecam a personalidade de suspeitos para uma organização misteriosa (Seu rosto amanhã). Letras de árias, discursos políticos, aulas a serem ministradas, frases de um romance estrangeiro: as causas e efeitos das palavras em nossas vidas. A problemática central da obra de Marías, dessa forma, é como calamos ou deixamos de calar, assim como a alegria e a dor advindas da decisão de guardar segredos ou torná-los públicos.
Uma cena impactante abre Coração tão branco. Em meio a um jantar em comemoração à sua volta das núpcias, uma jovem caminha até o banheiro e se mata com um tiro no coração. A suicida é tia do narrador; após a morte sangrenta, seu pai se casa com a irmã caçula da morta, sua mãe. Já adulto e órfão de mãe, Juan trabalha como intérprete de congressos políticos. Em um deles, o encontro entre uma governante britânica (claramente inspirada na primeira-ministra Margaret Thatcher) e outro espanhol (o ex-presidente Felipe González, provavelmente), ele troca, de propósito, as frases na tradução, transformando o sentido do colóquio, – uma prova dos poderes do falar – e conhece assim a sua esposa Luisa, também intermediária da reunião. Idas e vindas na história, devido, sobretudo, à ajuda de Luisa, levarão Juan a descobrir detalhes até então desconhecidos (e fatídicos) sobre o passado do pai e os motivos do suicídio da tia. “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, aconselha o pai. Essencial lembrar que Julián Marías foi perseguido pela ditadura de Franco, teve seus livros retirados das prateleiras e foi impedido de lecionar – e tudo isso porque seu melhor amigo o delatou com uma falsa acusação de traição, evento explorado abertamente pelo filho Javier em Seu rosto amanhã, mas que permeia toda a sua bibliografia.
O título de Coração tão branco foi tirado de Macbeth. A citação da peça do bardo inglês está presente inclusive na epígrafe: “Minhas mãos são de tua cor; mas me envergonha trazer um coração tão branco”. A frase é sussurrada por Lady Macbeth ao marido, que acabara de assassinar o rei Duncan. Foi-se embora ali a inocência de Macbeth, arrastada pelas palavras da esposa. Desconhecer o segredo mórbido do pai é a salvação de Juan, livre do perigo de escutar, já que “os ouvidos não têm pálpebras que se possam fechar instintivamente ao que é dito”. O personagem, como todos nós, convive diariamente com a dificuldade de manejar a linguagem, de tratar as palavras como armas (ou como jóias preciosas), sem prever aquilo que Marías chama de “efeito explosivo” – não esqueçamos que a História só se torna História depois de ser colocada em palavras, sejam elas ditas ou escritas. Mais do que isso, convive com a suspeita, sempre dolorosa e inevitável, e com a incapacidade de confiar de todo em quem quer que seja – no melhor amigo, na família, na mulher amada.
Não à-toa, outro tema central do romance parece ser, pelo menos na superfície, o casamento. Recém-unido com Luisa, Juan lamenta uma possível perda de identidade por parte de quem escolhe viver a dois – isto seria, a seu ver, “a abolição daquele que cada um era e pelo qual cada um se apaixonou”. Ao passo que a chefe de governo da Inglaterra, a tal personagem baseada em Thatcher, ressalta como em qualquer relação amorosa “todo mundo obriga todo mundo, não tanto a fazer o que não quer, mas antes o que não sabe se quer”. Acontece que mesmo o matrimônio ganha, aqui, tratamento de estudo de linguagem. “O casamento é uma instituição narrativa”, afirma, surpreendentemente, o autor espanhol, por meio da voz de seu intérprete. Juan continua:
“Por amor ou pelo que é sua essência – contar, informar, anunciar, comentar, opinar, distrair, escutar e rir, e projetar em vão – uma pessoa trai os outros, os amigos, os pais, os irmãos, os consangüíneos e os não-consangüíneos, os amores antigos e as convicções, as ex-amantes, o próprio passado e a própria infância, a própria língua que deixa de falar e sem dúvida a própria pátria, tudo o que em toda pessoa há de secreto, ou talvez de passado. Para agradar a quem se ama denigre-se o resto do existente, nega-se e execra-se tudo para contentar e tranqüilizar um só que pode ir embora, a força do território que o travesseiro delimita é tanta que exclui de seu seio o que não está nele, é um território que por natureza não permite que nada esteja naquele, exceto os cônjuges, ou os amantes, que em certo sentido ficam sozinhos e por isso conversam e nada calam, involuntariamente”.
Em seu admirável tratado Sobre a tagarelice, Plutarco reflete que “se os homens ensinam a falar, são os deuses que nos ensinam a calar”, e também que, por ser “o instrumento dos maiores bens”, a língua é também “o dos maiores males”. Ao escrever que “o calar e o falar são formas de intervir no futuro”, Marías, herdeiro talvez inconsciente do grande pensador grego, relaciona diretamente a questão também à perda da inocência, à necessidade de assumir um ato monstruoso e irremediável, como na citada tragédia de Shakespeare, ainda que a culpa seja de uma esposa ambiciosa (ou de um amigo delator). Afinal, “uma instigação nada mais é que palavras”. Pois tão logo um segredo ou sua revelação contaminam a nossa existência, deixamos, imediatamente e do mesmo modo que Macbeth, de ter um coração tão branco, manchado que está por essas palavras escarradas, gastas e impensadas.
Jonas Lopes é jornalista da revista Veja São Paulo. Mantém na internet o blog Gymnopédies (gymnopedies.blogspot.com).
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